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A música tem alma. E a alma não envelhece – Parte 2 (*)

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Para continuar a série iniciada ontem sobre música e envelhecimento, entrevistamos músicos na maturidade apaixonados pelo que fazem. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Pianista, com muito prazer

Joana Guidolin tem 73 anos e é pianista. Tocou na juventude, mas depois foi deixando de lado para seguir outros caminhos. Depois dos 65, quando se aposentou, resolveu ter aulas novamente e faz parte de um grupo de pianistas amadores que se encontra com frequência para aprender e trocar experiências, sempre com um professor. Aos 70 anos ela resolveu se dar um presente e lançou um CD, que ofereceu aos parentes e amigos no dia da festa.

Para ela, é um grande prazer tocar um instrumento: “Este prazer no piano, como é o meu caso, não é somente no momento final, quando a peça já está totalmente pronta para outros ouvidos, mas é um prazer que se sente durante o próprio estudo, pois praticar piano é estar sempre enfrentando desafios, é saber que, se persistir, irei conseguir. E aí é muito gratificante. O prêmio é sentir-se capaz, mais forte do que antes”.

Joana vê a música como um jogo com ela mesma: “Se, bem-sucedida, me sentirei mais potente. É um trabalho de paciência e de aquisição permanente de força. E na vida, não se tem de descobrir como ser forte a cada momento?”

Consultando seus amigos do grupo sobre os benefícios da música para a memória, ela diz que todos concordam que sim, pois o exercício de repetir, repetir e memorizar muitas músicas ajuda a estimular a memória: “Acreditamos que a memória é muito incentivada durante todo o tempo de estudo e a cada música aprendida e memorizada. Não sei se existe algo científico sobre isso, ou seja, como eu seria se não praticasse piano. Teria menos memória do que tenho hoje? Ou a memória musical fica em outro espaço do cérebro?”.

Joana também faz parte do Coral Canto da Casa, com 15 coralistas, com regência do maestro, Julio Battesti. Do grupo, seis coralistas têm mais de 65 anos e eles já fizeram um musical com um grupo de deficientes visuais no Tuca, cantam em festas, entidades e hospitais.

Alegria do Baretto

Aos 80 anos, o pianista Mário Edson Farah (foto do topo) toca quintas, sextas e sábados no Bar Baretto, sempre da meia noite até duas da manhã, e no Restaurante Fazano, às segundas e terças, das 21 às 22h30. Filho do compositor Nacif Farah, de Tatuí, Mário Edson nasceu em São Paulo, mas passou a infância e adolescência na cidade de seu pai. Durante anos dividiu a vida profissional entre o magistério e a música, mesmo quando veio para São Paulo tentar a sorte. Dava aulas, mas à noite tocava em casas noturnas, com um repertório voltado principalmente para a MPB. Mário Edson já conquistou muitos prêmios, entre ele o Governador do Estado, e é apaixonado pelo que faz. Quando a pergunta é se a música ajuda a memória, ele sorri e diz: “Tem que ensaiar todo dia, não dá tempo para esquecer. O importante é não parar”, completa.

Dupla de violeiros

Rose Blue e Décio Zylber são professores universitários (ela aposentada, ele ainda buscando coragem para parar de vez) e depois dos 50 anos resolveram aprender viola caipira e formaram a dupla Vereda Violeira. Com dois CDs gravados e inúmeras apresentações, inclusive com outros músicos, em eventos, bares, espaços de hotéis e em casas de idosos, eles são encantados pela viola caipira e muito dedicados aos estudos. Conhecem toda a história do instrumento, fazem aula de canto, ensaiam bastante, têm um repertório lindo e mantêm a expressão tranquila de quem se alimenta da música para afinar a alma.

Quando resolveram aprender, foram justamente ter aulas com um jovem professor de 17 anos. Rose diz que até pensou que não daria certo, mas, pelo contrário, ele com toda paciência e dedicação foi entregando os segredos e a música tomou conta da vida do casal. Décio comenta que eles cantam, tocam e contam causos, e que nas apresentações para os idosos sentem como a música é importante, resgata memórias e traz muita alegria. Muitos, no final das apresentações, chegam perto para contar que também tocaram um dia, e são incentivados pela dupla para voltar a tocar um instrumento. “Foi um desafio que resolvemos encarar e que deu certo. Com a música de viola, a vida abriu uma perspectiva de enraizamento e com ela é possível resgatar o tempo humano que muitas vezes é esquecido”, garantem. Dos filhos o apoio é total, mas quem vibra mesmo são os netos com a música dos vovôs. E assim, as modinhas de viola vão chegando a novos corações…

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