IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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“Quanto tudo acaba? – Quando o cérebro para de funcionar, diz o médico. Quanto o coração para de pulsar, diz o teólogo. Quando o pé para de dançar dizem as musas”.
Do livro Música, Inspiração e Criatividade, de Jon-Roar Bjorkwold (Summus Editorial)

Certamente, os músicos também diriam que a morte acaba quando o ser humano perde a capacidade de se maravilhar e de criar novas sinfonias. A música está presente em todas as fases da vida e, mais ainda, no envelhecimento. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Ele foi convidado pelo geriatra para falar durante o congresso e mostrar sua experiência com dois grandes nomes do mundo da música, com uma história parecida: a pianista Magda Tagliaferro (falecida em 1986, aos 93 anos de idade) e o cravista Roberto de Regina, com 91 anos e que ainda toca.

“Vamos nos dando conta de que no meio da música clássica há muitos casos de longevidade e, coincidentemente, esses meus professores tocaram até os 90 anos de idade em concertos em salas importantes como Londres Nova Iorque. E não é só na música clássica, há muitos músicos longevos inclusive no rock, como Mick Jagger”, comenta Marcelo.

Outra observação do músico, é a de que geralmente são pianistas, regentes ou cravistas que tocam até mais tarde: “No caso do canto, por exemplo, é mais difícil, o instrumento está dentro das pessoas e o envelhecimento fica mais evidente. Com o instrumento de corda e sopro a relação é diferente, ao contrário do teclado, que por uma questão fisiológica facilita a continuidade com a passagem dos anos”, ele diz.

Para Fagerlande, a música acompanha o ser humano em várias fases, é muito presente no processo de envelhecimento e nas memórias: “Eu não conheço a vida sem música, e acredito que é assim para todos que optaram pela música não por dinheiro ou fama, mas para percorrer um sonho, o que faz toda a diferença. Claro que é uma atividade que tem um desgaste físico e exige muito do corpo e da mente, traz cobranças. Há uma certa romantização de que a atividade física é inspiração, mas o público só vê o resultado final e não todo o esforço feito entre quatro paredes. Sempre foi difícil viver de arte em todas as épocas”.

Sobre Tagliaferro, ele conta que ela morreu com uma memória prodigiosa, tocando tudo sem partituras: “O curioso é que a memória está sempre presente, seja tocando em partituras ou não. Tem uma questão cognitiva, neurológica e cerebral e o músico trabalha para conquistar esse equilíbrio. A música é importante para a criança, para o jovem, para o adulto e para o velho, quando ela é feita com a alma está sempre presente”, conclui.

Sobre Marcelo Fagerlande

Nascido no Rio de Janeiro, é graduado em cravo com grau máximo pela Escola Superior de Música de Stuttgart (em 1986, na classe de Kenneth Gilbert) e Doutor em Musicologia pela Uni-Rio (2002). É professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1995.

(*) A série continua amanhã em nossas redes sociais, trazendo histórias de músicos com mais idade, encantados pelo trabalho

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O sonho de acordar sem despertador, fazer o que quiser durante o dia e não ter mais chefe pela frente às vezes pode virar um pesadelo para o aposentado.

“Não é só o “aposentando” que é afetado; os que convivem com ele também o são Por vezes, sutilmente, passam a depreciá-lo, deixá-lo de lado, dispensar suas opiniões, não levá-lo a sério – ou a superprotegê-lo, tolhendo suas iniciativas e decisões. Há também famílias que veem o tempo disponível do aposentado como uma oportunidade de ele ser útil, induzindo-o a assumir as funções de babá, cuidador, office-boy, motorista, cozinheiro, passeador de cachorro etc sem questionar se isso o faz feliz e realizado.

Não o fazem por maldade, nem de modo deliberado – são pessoas inseridas num contexto cultural que favorece tais valores e os comportamentos que deles derivam. Há também arranjos práticos a ser feitos na rotina doméstica, pois aquele indivíduo que saía pela manhã e voltava à noite cinco dias da semana agora fica o dia todo em casa, enxerga detalhes com os quais nunca se incomodou, reivindica um espaço que nunca ocupou

Assim, a nova paisagem da estrada da vida trazida pela aposentadoria exige readaptações, estabelecimento de novos limites, flexibilidade, boa vontade, esclarecimento de valores e sentimentos e autoconhecimento – necessitando tanto o aposentando como seus próximos dispor-se a chegar a um bom termo de convivência. Quem se aposenta costuma ter uma diminuição de renda e precisa lidar com questões ainda a hora de abdicar de decidir sobre o que lhe pertence, outorgando a outrem essa autoridade – nem de ficar passivo e omisso, naquele desastroso “deixa como está para ver como é que fica”. Aprender a lidar com dinheiro demanda esforço, mas é compensatório. Para encará-lo como ferramenta capaz de propiciar segurança, escolhas, liberdade, diversão e ajuda, deve-se percorrer um caminho de aprendizagem: fazer e seguir um planejamento financeiro. Sugiro que o leitor recorra à consultoria de um especialista, um profissional que lhe mostre as melhores maneiras de fazer investimentos e esquematizar um orçamento adequado à sua realidade, dentro de um planejamento financeiro equilibrado”.

Esse texto é do livro “Velhice – uma nova paisagem”, da psicóloga Maria Celia de Abreu, lançamento da Editora Ágora. O livro pode ser encontrado no site das grandes livrarias e da Editora Summus: http://www.gruposummus.com.br

 


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foto Guilherme Sanchez

A solidão não é boa companheira, principalmente para quem está na maturidade. Estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco (matéria da Folha abaixo) revela que pessoas solitárias têm maior taxa de mortalidade e risco de depressão e declínio cognitivo. Mesmo pessoas de mais idade devem estar abertas para novos relacionamentos e novas oportunidades de convivência.

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Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac, diz que o idoso de hoje deve reunir energia, persistência e criatividade para ir em busca de uma ampliação de sua rede de relacionamentos: “Há pessoas naturalmente mais sociáveis e expansivas, outras naturalmente mais introvertidas. Com frequência, as mulheres são mais ricas em amizades do que os homens. Não se trata de uma contagem numérica, nem de um concurso que ganha quem se relaciona com maior número de pessoas. Trata-se de cultivar relacionamentos de qualidade, porém, lembrando que é preciso ir atrás deles, cuidar, alimentá-los, principalmente quando tudo está indo bem… porque essa é uma das munições de melhor qualidade para sustentar uma pessoa quando nem tudo vai tão bem!”

Convivência saudável é uma das preocupações do Ideac, que desde 2001 realiza cursos e atividades para pessoas na maturidade. Em breve divulgaremos nossa programação para 2017 que inclui os cursos de Fotografia, Espiritualidade, Os desafios do envelhecimento, Redes Sociais, Meditação e outros. Aguardem!

Essa pesquisa, publicada pela Folha de SP, vai no mesmo sentido dos achados do mais longo estudo longitudinal já feito com seres humanos, o Harvard Study of Adult Development, que durante 75 anos, desde 1938, segue a vida de homens adultos, perguntando o que é que torna a vida feliz e saudável; iniciou com 724 homens e, em 2015, ainda permaneciam 60 como sujeitos da pesquisa; os resultados são relatados pelo seu pesquisador-chefe atual, Robert Waldinger, num vídeo bem interessanate para o TED cujo link é o seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=8KkKuTCFvzI


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Por Nan Waldman, Alive. https://www.quora.com/

Quais são as 3 coisas que cada pessoa deveria fazer antes de morrer?
Texto traduzido, editado e reescrito por Ana Fraiman, 2016.

Estive à cabeceira da cama de muita gente! E amei cada um deles em sua passagem. E isto é o que aprendi com eles que já se foram, pessoas a quem eu ainda amo e de quem sinto muita falta:

  1. Tenha seus documentos em ordem e não deixe nada mal esclarecido, coisas e situações confusas, para aqueles que também o amaram. Sua ausência já será dolorosa demais. Lidar com a sua desorganização será demais para aqueles que estiverem de luto por você. Deixe por escrito tudo que você tem a legar. Não basta dizer qualquer coisa antes de morrer. Coloque tudo claramente num papel e assine.

Muitos poderão não aceitar ou não acreditar. Você não desejará que eles se engalfinhem por conta de desavenças muito antigas, porque é isso que acontece: ninguém briga por dinheiro ou por bens numa hora dessas. As pessoas brigam por ciúmes, por predileções, por dores que foram caladas, que estiveram represadas por anos e anos e que, justamente na hora da dor – ou do alívio – elas emergem.

Segredos são revelados. Mentiras são desmascaradas e o pano de fundo é o dinheiro. Máscaras caem e aqueles que não tiveram caráter agirão com frieza. Você pode ter querido esconder suas percepções do mau caratismo de algum ou de alguns deles, esconder até de você mesmo, talvez porque tenha sido doloroso demais admitir que um filho, pai ou irmão, até mesmo um neto, tenha sido tão cruel e insensível por prazeres mesquinhos. Inclusive com você.

Antes de morrer, tomara você tenha se perdoado por ter sido cúmplice silente de tantas violências familiares, às quais você se furtou enfrentar e, com isso, ajudou a perpetrar. Violência em família é assim: tenta-se camuflar, mas as marcas se mostram e, justamente nessa hora. Não basta pensar que o problema será deles, porque você jã não estará mais aqui. Despeça-se da vida, senão com amor, com decência.

E tomara, também, você tenha aprendido sobre amar: não amamos alguém porque esta pessoa é boa, atenciosa e presente. Nem porque elas nos amem, também. O amor se basta. E, mesmo que esta pessoa jamais haja demostrado qualquer sinal, um resquício de amor você, se aproprie do amor que você sentiu por ela.

E não se esqueça de agir com bom humor! Pregue-lhes peças. Decepcione. Ou os presenteie carinhosamente, antes de partir. Depois de morto, você não terá mais nada a dizer ou fazer.

Isso quer dizer: deixe tudo por escrito e com cópia, nas mãos de alguns em quem você confie. E se não houver ninguém em quem possa confiar, contrate um advogado e encare bem a sua morte: ela poderá aliviar as suas dores.

  1. Expresse seu amor enquanto você pode. Todos os dias das nossas vidas trazem consigo um mistério. Ninguém sabe explicar porque acordamos vivos! Com certeza, também para todos nós, haverá um dia em que acordaremos mortos. Os outros saberão disso, mas você não. Uma coisa boa: aprenda libras, a linguagem dos sinais. Nunca se sabe o momento em que não poderemos nos comunicar direito, porque estaremos entubados e não poderemos falar.

Também não precisa ser tão pessimista. Faça o que tem que ser feito e esqueça. Viva como se a morte fosse alguma coisa que só acontece com os outros. Hum, faça planos de futuro. Serão uma boa distração. Pode até ser divertido. Não pense na morte. Ela não precisa ser chamada, é uma convidada manhosa que só aparece quando ela quer.

  1. Faça as pazes com o seu passado, seja lá como isso se manifeste. Você simplesmente faz o que todos fazem: tentar viver o melhor possível, enxergando suas vidas de algum ângulo que lhes é muito peculiar. Não existe um jeito certo de viver.

Muita gente só tem seus valores e méritos reconhecidos quando já não mais estão entre nós. Pessoas maravilhosas podem ter vivido vidas trágicas! Porém não tente viver pela metade, para morrer menos. Chegada a sua hora, você irá com tudo!

Descanse e encontre conforto e graça naquilo que você viveu. Terá sido a sua história e de mais ninguém. Honre a sua história. Deve ter acontecido muita coisa hilária. E ridícula.

Ninguém escapa de ser patético, vez por outra. Dom Quixote, o cavaleiro andante de triste figura foi um grande herói! E soube amar sua Dulcinéia, mulher de difícil vida fácil, sem a menor autoestima, por quem se apaixonou perdidamente, elevando-a ao nível mais sublime da experiência humana: despertou nela, também, o amor.

Seja lá o que você tenha sido ou vivido ao longo de seus muitos anos, agora não há mais nada a fazer. Não dá para voltar atrás, quando muito, dá para se arrepender e, depois, se perdoar por tamanha ignorância, já que nos tornamos sábios somente quando bem mais velhos.

Pouca coisa poderá ser corrigida. Talvez uma injustiça, uma dor moral que você tenha infligido a alguém. Reconheça isso e, se a pessoa ainda estiver viva, procure deixa-la saber que você reconhece seu erro tolo. Fará bem a ela e, talvez, também a você.

Nos últimos momentos de lucidez – e agora é um bom momento para ser e agir com lucidez, respire fundo e fique em paz.

Relaxe. Aceite. Sorria docemente. Acolha em seu coração, seja lá o que for e, deixe ir. Respire e siga o seu caminho.


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brincadeira

(*) Maria Celia de Abreu

Para a sociedade funcionar como deve, o trabalho é um fator essencial. Ora, brincar é o trabalho das crianças. É fundamental para a infância funcionar como deve! As brincadeiras são diferentes conforme a idade e conforme a herança cultural. Cada criança tem um estilo diferente de brincar e gosta de brincar com coisas diferentes. Muito novas, brincam sozinhas; depois, ao lado de outras crianças; por fim, estão capacitadas para interagir e para cooperar (o que não quer dizer que abandonem seus momentos de brincar sozinhas). Na brincadeira solitária, são estimulados o desenvolvimento cognitivo e físico.

Em grupo, pratica-se habilidades interpessoais e de comunicação, experimenta-se papéis e obedece-se a regras. Por exemplo, quando a criança pequena, brincando sozinha ou ao lado de outra, constrói uma torre empilhando blocos de cores e formas diferentes, estabelece bases para os conceitos da matemática, coordena a visão com o movimento, aprende a usar músculos, discrimina formas, tamanhos e cores.

O faz de conta inicia como solitário e evolui para os jogos dramáticos que envolvem outras crianças. Nele, os pequenos experimentam papéis novos, enfrentam emoções desconfortáveis, colocam-se no ponto de vista de outros e não se sentem ameaçadas por tais “ousadias”, uma vez que sabem que estão atuando no plano da imaginação.

Ao lançar um pano sobre os ombros e “tornar-se” um super-herói, a criança experimenta ser poderosa, bondosa, importante, diferente etc. e também como é ser percebida pelos outros desse jeito. O faz de conta exige abstração da realidade, uma capacidade cognitiva, portanto, não costuma aparecer antes dos dois e meio ou três anos de idade. As crianças que costumam brincar assim são em geral mais cooperativas com outras crianças, mais alegres e possivelmente mais criativas. Assistir televisão por muitas horas dificulta brincar usando a imaginação, não só porque não sobra muito tempo, como porque a TV estimula a receber mensagens passivamente, em vez de inventar as próprias.

Crianças com seis anos ou mais já são capazes de entender e apreciar jogos sociais com regras formais, como pular corda, jogar bolinha de gude ou futebol de botão. São brincadeiras que preparam emocional e socialmente para viver em sociedade, quando forem adolescentes e adultos. É função dos adultos da família proporcionar ambiente e momentos para suas crianças poderem brincar. Com muita alegria, e sem serem censuradas por estarem “perdendo tempo”, porque na verdade elas estão exercendo tarefas legítimas e indispensáveis para um desenvolvimento saudável e harmonioso.

(*) Maria Celia de Abreu é Psicóloga formada pela PUC/SP, onde completou o mestrado e o doutorado. Professora universitária por mais de 20 anos na PUC/SP, psicoterapeuta de adultos e fundadora e coordenadora do Ideac.


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Confira o artigo do psicólogo Giulio Vicini, do grupo do Ideac. Ele diz que recuperar a saúde é recuperar a fé do deprimido. Leia esses e outros artigos no site http://www.ideac.com.br

Velhos deprimem-se porque estão a caminho da morte? Porque são isolados de seu grupo de relacionamento, quando decidem ir viver numa instituição para idosos? Ou, pior, quando outros decidem isso por eles? Ou, ainda, porque alguma pessoa querida de seu relacionamento faleceu? Ou por quantos outros motivos? Estudos sobre a prevalência de doenças em diferentes regiões e grupos sociais revelam que a depressão afeta numerosas pessoas de ambos os sexos, mas sobretudo mulheres, em qualquer idade e, também, na velhice. O psiquiatra Leonard Cammer disse, já há quase quarenta anos, que a depressão era uma ocorrência tão comum que podia ser considerada “perfeitamente normal”. Evidentemente, há exagero nesta afirmação, pois na verdade nem todos somos deprimidos. Todavia, a depressão expressa uma condição de vida bastante comum para as pessoas nestes últimos quarenta anos. Uma condição de vida, porque a depressão é algo mais duradouro do que episódios de dor, aflição, tristeza e desilusão, pelos quais passam as pessoas sãs, que, porém, na maior parte do tempo, se sentirão bem em suas relações, em seu trabalho e em seu lazer.

Um violino de cordas frouxas

O que distingue a depressão de qualquer outro estado emocional, segundo Lowen, é a incapacidade de responder a estímulos. Enquanto a pessoa desanimada pode voltar a ter fé na vida, logo que mudarem as circunstâncias do momento que está vivendo, se a pessoa triste pode iluminar-se diante da perspectiva de alguma alegria, nada consegue fazer estimular uma pessoa deprimida; ao contrário, perspectivas de diversão e prazer podem torná-la mais deprimida ainda. Para entender essas diferenças, Lowen compara a pessoa a um violino. Quando o instrumento está afinado, as cordas vibram sonoramente permitindo tocar qualquer música, alegre ou triste. Se tocarmos um violino desafinado, teremos um resultado musical desastroso, cacofônico. Mas se as cordas estiverem frouxas, sem quaisquer tônus, o instrumento será incapaz de qualquer resposta musical, estará inerte, exatamente como a pessoa deprimida. Evidentemente, esta incapacidade de responder a estímulos terá oportunidade de evidenciar-se mais nas pessoas profundamente deprimidas e em menor grau nas menos deprimidas (que os médicos chamam de distímicas). Estas últimas aparecem como “normais” ao olhar menos atento, pois conseguem desempenhar suas tarefas cotidianas ainda de forma competente. Mas elas têm consciência de sua depressão, queixam-se dela e são percebidas como deprimidas por quem convive com elas. Não se pode confundir com uma pessoa deprimida uma pessoa que sofre uma desilusão por causa de uma perda econômico-financeira ou uma perda de oportunidade de trabalho ou de ascensão na carreira. Esta pessoa ficará triste, mas não imobilizada; expressará sua tristeza ou até raiva pelo acontecido, mas não perderá sua capacidade de reavaliar sua situação e de se dedicar a nova empreitada. De forma semelhante, não há como confundir uma pessoa deprimida com alguém que encontra dificuldades ou tem falta de sorte ou mesmo sofre uma perda afetiva. Todas estas situações acarretarão sentimentos de tristeza que distinguem uma pessoa deprimida, justamente, por esta ser incapaz de expressar sentimentos. Uma pessoa enlutada por causa de uma perda afetiva, normalmente, expressa sentimentos de tristeza ou de raiva por causa desta perda. Segue-se o pranto, como expressão da dor que ela sente e tal manifestação permite que seu corpo se libere do bloqueio de energia que a dor lhe causou e que esteja novamente disponível para a vida.

O corpo dessensibilizado se desvitaliza

A depressão não é uma emoção, pois representa justamente a falta de emoção. O que causa a depressão é a repressão da emoção. Quando nos obrigamos a frear alguma ação que julgamos inconveniente num determinado momento, estamos bloqueando um comportamento; temos, porém, consciência do desejo ou impulso que nos levaria a fazer algo e que afinal deixamos de fazer. O bloqueio ocorre na superfície do corpo, logo antes que ele se movimente; mas, seja o impulso como o sentimento que lhe é conexo puderam manifestar-se a partir do interior do corpo até à sua superfície, onde então a ação de resposta ao impulso/sentimento foi retida conscientemente. Muitas vezes, porém, chegamos a bloquear a própria manifestação do desejo e do sentimento que o acompanha, pois ele é retido no interior do corpo e não chega à superfície: nossa musculatura, cronicamente em tensão, não deixa passar o sentimento e ele é rechaçado (reprimido) para dentro do corpo, a um nível em que não é percebido. Isto ocorre quando, por circunstâncias de nossa vida, somos levados a reter seguidamente as expressões de nossos sentimentos ou desejos; a parte de nosso corpo que seria sensibilizada pelos impulsos/sentimentos perde sua sensibilidade e nossa musculatura se contrai de forma crônica. Assim, tudo o que acontece nessa parte de nosso corpo escapa à nossa consciência e esta região se dessensibiliza, se desvitaliza. Cada parte do corpo dessensibilizada reduz a vitalidade de todo o organismo e é isso que ocorre na pessoa deprimida, até o extremo de parecer morta viva. Mas depressão não significa uma situação de morte; ela pode ser considerada uma reação de nosso organismo para se reequilibrar, fazendo cessar um gasto excessivo de energia (atrás de ilusões ou de tentativas de vencer a apatia pela vontade, como veremos em seguida), dando assim ao corpo o tempo necessário para se recuperar.

O corpo deprimido é incapaz de prazer

Afetos e a depressão

Mas, o que produz a dessensibilização de nosso corpo? Lowen atribui este fato à perda do afeto da mãe. Tal perda provoca dor na criança, fazendo-a, então, reagir com um sentimento de raiva, a fim de tentar superar a contração muscular que a dor gerou em seu corpo. As sensações e a energia são retiradas da superfície do corpo (onde o prazer se manifesta) e retidas e concentradas no aparelho muscular, de onde elas podem ser descarregadas somente através de uma ação de tipo violento. Esta reação é uma descarga de raiva seguida de uma descarga de choro e soluços, após a qual é então possível ter de novo a energia disponível para as funções prazerosas do corpo. Se a descarga não se completar, o organismo fica biologicamente bloqueado quanto à possibilidade de nova busca de prazer. Lowen julga que sempre existe uma mãe ausente na origem da depressão. Ausente por ter morrido ou ter-se ausentado fisicamente, por qualquer motivo, ou ausente por, embora presente, manifestar hostilidade diuturna para com a criança. Ou ainda, uma mãe ausente que não pôde ser substituída por nenhuma outra figura feminina capaz de satisfazer as necessidades afetivas e de contato corpóreo da criança pequena. A perda do amor da mãe faz com que a pessoa deprimida sinta, ao longo de sua vida, necessidades que a mãe não pôde ou não quis (consciente ou inconscientemente) satisfazer: ter contatos corporais (inclusive chupar e ser aquecido), ser sustentado, ser objeto de atenção e de aprovação. Na pessoa adulta, esses desejos insatisfeitos revelam-se em certos comportamentos, como incapacidade de ficar sozinho, medo da separação, excesso de loquacidade ou outras reações exacerbadas, habilidade para atrair a atenção dos outros contando vantagens ou de alguma outra forma, sensibilidade elevada ao frio e atitude de dependência.

De repente ficou deprimida sem motivo aparente

Não é fácil explicar como uma pessoa aparentemente cheia de energia possa cair de repente num estado de depressão. Às vezes, isto ocorre depois de uma grande desilusão, do esvanecimento de um grande sonho. Há uma semelhança entre pessoas deprimidas e dependentes de álcool, antes delas entrarem em depressão ou antes do alcoolismo tornar-se problemático para elas.Tanto o deprimido como o alcoólico, provavelmente manifestavam uma energia que depois viria a lhes faltar, porque a desenvolviam de forma compulsiva, como reação a seus problemas e não como expressão de sua vitalidade. De repente, a compulsão cede e a falta de energia aparece claramente. Lowen pensa que o alcoolismo, assim como o uso de drogas, são uma forma de cobertura da depressão (se formos computar como deprimidos todos os que têm dependência de álcool e drogas, veremos que o número de deprimidos em nossa sociedade supera qualquer expectativa). Todavia, é mais comum a reação de depressão manifestar-se sem a ocorrência de qualquer fato específico e, assim, a falta de energia aparece como a causa mais evidente deste estado de bloqueio das emoções. O adulto ou o idoso que fica deprimido tem um histórico anterior de depressão, mesmo que imperceptível. A depressão não nasce na velhice; nasce na infância e se desenvolve de forma mais ou menos evidente, dependendo da gravidade dos acontecimentos que a geraram, das tentativas da pessoa para tentar superá-la e da possibilidade de figuras substitutas adequadas satisfazerem suas necessidades quando criança. Uma perda afetiva ou uma contrariedade muito aversiva (como por exemplo ser asilado à revelia) podem ser episódios que desencadeiam uma depressão, mas não são sua causa. Se a pessoa possui uma vitalidade normal sabe enfrentar qualquer contrariedade que a vida lhe apresenta, mesmo que passe por grande sofrimento. Mas isso é impossível para o deprimido, justamente por lhe faltar a vitalidade suficiente na hora das dificuldades. Desvitalizado, sem forças para reagir ou mesmo expressar seus sentimentos, o deprimido fica alheio à realidade da vida e se deixa viver ou até pensa em não mais viver. Mas, como já foi mencionado anteriormente, na maioria das vezes não há motivo desencadeante aparente; tudo ocorre como se a linfa secasse de repente no corpo do deprimido.

Do entusiasmo à depressão – uma gangorra de altos e baixos

Nem todas as pessoas deprimidas mantêm-se apáticas e alheias à vida o tempo todo. Frequentemente, as pessoas deprimidas parecem conseguir sair do fundo da depressão e retornar à vida, manifestando entusiasmo e euforia, ás vezes tão exaltados que os outros à sua volta julgariam excessivos. A pessoa eufórica é hiperativa, fala com rapidez, expressa suas ideias com facilidade e as solta quase como uma avalanche, manifesta uma autoestima à prova de contestação. Ela age como se fosse uma criança que, separada da mãe, espera excitada o momento de reencontrá-la. Porém, a energia despendida pela pessoa deprimida para viver seu período de exaltação é apenas superficial, limita-se à cabeça e à superfície do corpo, onde se ativa o sistema muscular voluntário, que produz justamente a hiperatividade que lhe é peculiar. Esta energia remanescente no indivíduo dirige-se para a parte superior do corpo, com o objetivo de concentrar a atenção sobre a pessoa, numa tentativa de restaurar um sentido de onipotência infantil prematuramente perdido. A pessoa exaltada manifesta superexcitação como se estivesse esperando por um acontecimento milagroso, capaz de realizar seus desejos mais profundos. Na pessoa deprimida e que periodicamente se exalta, a perda do amor da mãe nunca foi aceita como irrevogável. Por isso, continua esperando, que este amor lhe seja restituído. Esta pessoa, inconscientemente, considera os que estão à sua volta como substitutos da mãe e deles fica esperando que a amem, que cuidem dela, que a sustentem e a nutram. Ocorre muitas vezes que estas pessoas não tenham condições de cuidar do deprimido como se ele fosse uma criança. Nenhuma pessoa adulta pode obter, de substitutos maternos, a segurança que não teve na infância. Ela deve obtê-la em si mesma, através do amor, do trabalho e da sexualidade. Assim, o interesse inicial das pessoas chegadas ao deprimido transforma-se mais ou menos rapidamente em incômodo, que logo as afasta dele. O afastamento é interpretado pelo deprimido como rejeição; sua autoestima esvazia-se como uma bexiga furada e o eufórico cai na depressão. A energia que havia excitado as estruturas periféricas do corpo retira-se para o seu centro, na região do diafragma, do estômago e do plexo solar, onde fica retida. Por essas razões, há na vida de muitas pessoas deprimidas um alternar-se contínuo de estados de euforia e de estados de depressão. O deprimido dá cabo de sua energia perseguindo ilusões

Necessidade de expressão

Lowen constata que há amarras exteriores e interiores que aprisionam as pessoas nas garras da depressão. Em nossa vida diária podemos sentir-nos impedidos de nos expressar livremente na política, na família, na escola, no trabalho, nas relações sociais. A expressão de si mesmo é fundamental para que a personalidade de cada um se estruture e se manifeste. Tal expressão é basicamente um fenômeno corporal, pois consiste na manifestação de todos os sentimentos, dos quais o amor é o mais profundo. A pessoa tolhida constantemente em sua expressão de si acaba fechando seus canais expressivos e tornando-se vítima da depressão. Toda sociedade limita a expressão de si para obter coesão social, mas tais limitações são aceitáveis apenas se não inibem demasiadamente tal expressão. Porém, a pessoa pode ter dentro de si mesma outras amarras até mais aprisionantes, frequentemente inconscientes ou racionalizadas, do que as externas. A pessoa percebe-se aprisionada por barreiras “daquilo que se deve ou não se deve fazer” e assim sente-se oprimida. Para libertar-se desta opressão, ela acaba construindo sonhos e ilusões de libertação. Estes sonhos geram projetos e metas a serem perseguidos. Entre os sonhos mais frequentes que muitos perseguem em nossa sociedade há os da riqueza, da fama, do sucesso e da beleza. Dificilmente tais metas fazem bem para a interioridade das pessoas. Nem o dinheiro, nem a fama ou a beleza podem sozinhos oferecer as satisfações interiores que dão um sentido à nossa vida. Prova disso é que ricos e famosos também se deprimem. O verdadeiro objetivo de alcançar a fama e de ganhar dinheiro é a necessidade de ser alguém e isto geralmente revela uma grande falta de autoestima, que ocorre quando negamos a importância de nosso corpo. Então, faltando-nos uma imagem corporal satisfatória, nós precisamos construir uma outra imagem baseada na posição social, política ou econômica. É possível sair do fundo da depressão?

Buscar ajuda

È muito difícil que uma pessoa deprimida consiga superar por si mesma o estado de depressão, pois ela, geralmente, não tem consciência de que seu problema maior está na falta de energia em seu corpo. Ela pensa que se trata de um problema de falta de vontade e talvez se martirize por causa disso. As pessoas que estão em volta dela também costumam achar a mesma coisa e pensam em ajudá-la estimulando-a a empenhar-se nos compromissos ou a procurar atividades supostamente prazerosas. No entanto, como o corpo da pessoa deprimida está desvitalizado e não está disponível ao prazer, esses incitamentos revelam-se ineficazes. Lowen julga que a vontade seja um mecanismo emergencial de grande valia para a sobrevivência humana, mas de nenhum valor para a obtenção do prazer, isto porque o corpo não funciona com base na vontade da pessoa, mas com os recursos de sua própria força vital inata. Também ocorre que as pessoas que manifestam comportamento de alternância de humor – períodos de euforia seguidos de fases de depressão – não percebam que despendem suas parcas energias correndo atrás de sonhos (quando eufóricas), cujos projetos costumam estar fadados ao fracasso e não à solução de seus problemas. Então, o que fazer?

A visão médica

Para a medicina, a depressão é um transtorno psiquiátrico de tipo “desordem mental”, caracterizado por várias manifestações, tais como, perda de interesse ou prazer por atividades antes prazerosas, humor deprimido durante a maior parte do dia, alteração significativa de peso (geralmente perda), alteração do padrão normal de sono, agitação ou depressão psicomotora, fadiga ou perda de energia, sentimentos de culpa ou inutilidade, dificuldade de concentração, pensamentos recorrentes de morte e suicídio e tentativas de suicídio. Tais características podem ser mascaradas no idoso e a depressão nele pode apresentar-se de formas atípicas (agitação psicomotora, hiperfagia e hipersonia) ou ainda associada a delírios e alucinações (depressão psicótica); ela pode ainda ser secundária, ou seja, originada por alguma outra doença orgânica. Para afastar essa possibilidade, é sempre interessante submeter-se a diagnósticos médicos que indiquem que não há doença orgânica na origem da depressão. Por causa do mascaramento dos sintomas e de sua atipicidade muitas vezes a depressão não é identificada pelos médicos não-especialistas, de forma que boa parte dos idosos deprimidos não recebe tratamento médico adequado. Os médicos dizem que quando o diagnostico da depressão é bem feito e o tratamento adequado, o prognóstico é de recuperação da maioria dos pacientes (entre 70 e 90%). Não explicam, porém, o que entendem por “recuperação”: se uma volta à normalidade da vida, sob controle permanente ou não de remédios, e com a capacidade recobrada do prazer ou sem prazeres. Para eles é sempre necessário o tratamento com fármacos antidepressivos, mesmo nos quadros leves. Julgam também essencial, além dos medicamentos, um tratamento psicoterapêutico que envolva toda a família da pessoa deprimida. Difícil é saber como combinar adequadamente um tratamento medicamentoso, geralmente extenso no tempo e em doses elevadas, que condiciona o físico e o espírito da pessoa, com uma psicoterapia em que a personalidade do deprimido pode aparecer como “embaçada” ou alterada pelos efeitos dos remédios.

Respirar para recuperar a saúde

Mas, que tipo de psicoterapia funciona melhor na depressão? Segundo Lowen, é mais fácil e eficaz uma psicoterapia em que se trabalhe com o paciente no aspecto físico ou energético de sua personalidade que no aspecto psíquico ou de seus interesses, considerando que sua resistência a se interessar ativamente pela realidade do mundo é enorme. Isso, pelo menos, no início do tratamento. Nem por isso o aspecto psíquico pode ser ignorado em todo o processo de recuperação da saúde. Lowen assegura que qualquer técnica de ativação da respiração consegue melhorar o estado de ânimo do deprimido, porque a melhora da respiração aumenta a corrente de excitação corporal, conduzindo-o, em um período mais ou menos longo, a alguma forma de liberação emocional, geralmente através do choro ou da raiva. Este é o objetivo principal da terapia, considerando que a depressão decorre justamente da repressão das emoções; a abordagem corporal, permitindo efeitos imediatos, ainda no começo da terapia, revela ao deprimido que ele pode dispor de uma solução para seus problemas diferente da que ele já tentou sem resultados – a da superação de seus problemas pela força de vontade – implicando normalmente no esgotamento de suas forças corporais. Para este tipo de psicoterapia é necessário procurar um terapeuta que siga a linha da análise bioenergética (www.analisebioenergetica.com.br; http://www.bioenergetica.com.br ; http://www.centroreichiano.com.br ). Na falta deste, outros, que lidam com psicoterapia corporal seguindo outras linhas de trabalho, poderão ser encontrados. Na falta destes também, pode-se combinar uma psicoterapia clássica, de tipo verbal, com exercícios de respiração e massagens para relaxar a musculatura do corpo, a fim de facilitar a expressão e os sentimentos da pessoa deprimida. Para isto, um terapeuta de Self-Healing de Meir Schneider pode ser procurado (www.self-healing.com.br) ou então um terapeuta ocupacional ou massoterapeuta com boa disposição para descobrir como ajudar uma pessoa deprimida. Todos os exercícios que aprofundem a respiração são úteis e os ambientes bucólicos que podem relaxar a pessoa e fazê-la respirar melhor também são indicados. O contato com a natureza é fundamental para a recuperação da vitalidade do corpo, tendo em vista que o que falta na nossa cultura também ao deprimido é a percepção de que ele é natureza e que a natureza nele é seu próprio corpo.

Reconstruir o si pela expressão de si mesmo

Qualquer terapia – e nisto incluo práticas adequadas de atendimento aos deprimidos por parte de seus cuidadores, para ter uma eficácia mais duradoura para a cura da depressão deve procurar superar o efeito aviltante e deformante da perda do amor. Todavia o terapeuta/cuidador não pode ser um substituto da mãe, mas sim ter atitudes como as de apoiar moralmente o paciente, dar-lhe segurança afetiva e confortá-lo, inclusive através de contato físico amigável. Também, deve-se tratar o deprimido adulto como adulto e não como a criança que ele gostaria de continuar a ser, na vã esperança de recuperar o amor da mãe que não teve em criança. Deve-se reconhecer a criança insatisfeita nele, mas não satisfazer suas demandas de criança. O foco da terapia e dos cuidados deve ser a profunda alteração de seu funcionamento corporal, posto que esta é a realidade de seu ser. Reclamar a perda do afeto da mãe não reconduz a vitalidade ao corpo do deprimido e o que importa é reconstruir o si (pela expressão dos sentimentos), desenvolver o pleno funcionamento do corpo e radicar-se na realidade presente (não nas perdas do passado ou em sonhos da irrealidade). Não faz sentido um adulto reclamar de desejos infantis insatisfeitos. Para Lowen, um adulto não pode reclamar a não ser a perda de seu pleno potencial de ser humano. É oportuno alertar as pessoas, quando em estado de euforia, para que se acautelem, pois logo se verão em dificuldade com as contrariedades e recairão na depressão. As fantasias não são um bom caminho para sair da depressão. Melhor é manter uma pessoa deprimida em contato com seus problemas: uma pessoa abatida está mais próxima do chão, portanto de seus problemas, da realidade e é do chão que ela precisa para reerguer-se em bases sólidas. Muitos deprimidos esperam que a terapia ou os remédios libere de forma mágica uma reserva intacta de energia. É difícil para eles aceitarem que seu corpo precisa recuperar sua própria energia, quando se sentem fisicamente cansados, porque não atinam para o fato de que usaram suas reservas de energia por muitos anos sem renová-las e que, sobrevinda a depressão, estas reservas estão exauridas. Cabe ao terapeuta/cuidador fazer-lhes entender a necessidade de recomposição da energia do corpo e da condição de que isto apenas é possível com o devido tempo e o devido descanso.

Suicídio, ato hostil

A família

Às vezes, a pessoa profundamente deprimida pode engendrar pensamentos suicidas e acabar de fato com sua vida. Além disso decorrer de um sentimento de profunda recusa de seu próprio corpo (ele não corresponde às suas imagens), geralmente pode também significar um ato hostil para com a família. De fato, a pessoa potencialmente suicida poderia achar que sua família não está à altura de suas expectativas e assim atribuir a ela sua profunda desilusão. Lowen revela ter ajudado suicidas potenciais a afastar de si ideias autodestrutivas, mostrando a eles este sentido de hostilidade. Tal comportamento costuma gerar sentimentos de raiva nos deprimidos. A hostilidade pode, então, extravasar de maneira menos destrutiva que não o suicídio, manifestando-se de forma mais branda através da raiva. A liberação dos sentimentos negativos reprimidos permite que a reação de depressão vá relaxando a força de suas garras sobre o corpo do deprimido, levando também à melhora de sua autoestima, estilhaçada justamente pelos sentimentos negativos não expressos. O deprimido costuma alimentar sentimentos de culpa: porque não age adequadamente, é um fardo para os outros, é uma “ducha fria” para o bom humor de qualquer pessoa. A depressão aparece-lhe como a expressão de sua falência. O senso de culpa aumenta sua depressão criando um círculo vicioso do qual ele não consegue sair sozinho. Lowen julga que o fato de considerar a depressão uma doença pode liberar o deprimido da parte superficial de seu sentimento de culpa em relação à depressão, diminuindo seu sentido de falência. O apoio do terapeuta/cuidador pode então surtir algum efeito para fazer mover o deprimido em direção à vida.

Recuperar a saúde é recuperar a fé do deprimido

A fé na vida é transmitida pela mãe ao bebê, através do aleitamento e dos cuidados. O afeto da mãe, traduzido nas suas constantes atenções à criança, gera nela a fé na existência e constrói nela o sentimento de que pode se entregar à vida, pois suas necessidades serão satisfeitas. A criança adquire assim confiança no mundo e em si mesma como sujeito que tem direito de receber e de buscar a satisfação de suas necessidades. A criança que perde a fé na mãe, porque ela não está sendo capaz de satisfazê-la, perde também a confiança em si mesma, nas suas sensações, nos seus impulsos, no seu próprio corpo. Este, aos poucos, vai se fechando às sensações e aos sentimentos, para superar a dor que a perda do afeto da mãe lhe acarreta, e cria áreas corporais desvitalizadas, começando assim um processo de reação depressiva. “O sentimento da fé é o sentimento da vida fluindo no corpo (…). Quando não há bloqueios nem constrições que perturbem ou distorçam o fluxo, o indivíduo experimenta em si mesmo, uma unidade e uma continuidade (grifo meu). Os diferentes aspectos de sua personalidade estão integrados, não dissociados. Não é uma pessoa espiritual em oposição a uma pessoa sexual (…). Sua sexualidade é expressão da sua espiritualidade porque é um ato de amor. Sua espiritualidade tem um sabor telúrico; é o espírito da vida que ele respeita e vê manifestado em todas as criaturas da Terra. Não é uma pessoa cuja mente domine o corpo nem é um corpo que não tem mente. É uma pessoa que se reflete em seu corpo. Mas de igual importância é o seu sentido de continuidade. Ele vem do passado, existe no presente, mas pertence ao futuro (…). Sem fé e sem estar ligado ao futuro a vida de alguém torna-se parada, como acontece com as pessoas deprimidas (…). As pessoas com uma fé verdadeira se distinguem por uma qualidade que nós todos conhecemos. Essa qualidade é a graça. (…).” (Lowen, obra citada, p.218-20) Saberemos que uma pessoa deprimida está readquirindo sua fé e, portanto, reconstruindo sua energia vital, quando percebermos que ela está em contato com seu corpo e consciente de seus próprios sentimentos. Poderá estar livre, então, de qualquer episódio importante de depressão.

Giulio Vicini é Mestre em Gerontologia, psicólogo, Self-Healing Masse Practitioner/Educator – Lewel Two


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idosos

(*) Por Maria Celia de Abreu

Numa tarde dessas, estando ao telefone com uma jovem, pessoa vivamente interessada por assuntos da vida em geral, o tema rolou, na conversa, sobre as diferenças entre nossas gerações e, principalmente, as características de pioneirismo da minha geração. Ambas concordamos a despeito dos vinte e cinco ou trinta anos que nos separam, que pioneiro e pioneirismo são termos que vêm carregados de conotações positivas: sentimentos de orgulho, criatividade, ousadia, coragem e outros nessa linha. Quem tem hoje entre cinquenta e cinco, sessenta e cinco ou setenta anos, foi quem, aos vinte, conheceu a liberdade inédita que a pílula anticoncepcional passou a permitir às pessoas, acarretando as enormes transformações, que são bem sabidas hoje, no exercício sexual, nos valores vigentes na sociedade e até na estrutura da família. O conflito da jovem mulher – e de seu jovem companheiro de geração – era muito forte: de um lado, continuar seguindo com segurança (ou… covardia?) os mesmos moldes de comportamento que os pais e avós viveram, mas sem exercer a liberdade tão recentemente vislumbrada; de outro lado, usufruir das descobertas da ciência, mas sem ter padrões a imitar e tendo de bater de frente com os ditames morais e religiosos predominantes, o que causava enorme medo, e também gerava posturas excessivamente radicais. A opção era difícil, dolorosa e angustiante. A geração da minha jovem interlocutora já não enfrentou essas dificuldades, pelo menos não com tanta força; para quem tem hoje seus trinta, trinta e cinco anos, esses dilemas, se existiram, foram resolvidos em âmbito pessoal – uma questão de foro íntimo.

Nesta minha geração, foi sobretudo a mulher que sobressaiu por estar rompendo padrões. Tornou-se numerosa nas escolas superiores, incluindo-se em redutos tipicamente masculinos, como a engenharia e a medicina. Logo que entrava para a Faculdade, a jovem se punha a fumar em público: em sala de aula, em festinhas, embora nem sempre diante dos pais, pois isto era um desrespeito máximo em algumas famílias. (Infelizmente, até os anos 70 não se dispunha das informações que se tem hoje sobre o prejuízo para a saúde que esse vício provoca; quero crer que, se se soubesse desses dados, não se consideraria que uma moça fumando em público simbolizava elegância, sensualidade, ousadia, modernidade). A mulher dessa geração firmou-se no mercado de trabalho, reivindicando posições e salários até então pertencentes só ao homem.

Assumiu cargos até de chefia, familiarizou-se no trato com o dinheiro, abriu conta corrente pessoal no banco, tornou-se capaz de se sustentar. Dirigiu seu próprio carro, viajou sozinha, morou sozinha. Segura de si, começou a ter iniciativas de pedir divórcio se as condições do casamento não a satisfaziam. Desde então, até hoje, vem aparecendo num crescendo até em posições políticas, candidatando-se e sendo eleita. Claro que tudo isso não aconteceu sem sofrimentos, angústias, dor psicológica, desamparo. Sabemos que todas as coisas têm um lado de ganho, mas também um outro lado de perdas. Por exemplo, essa mulher passou a ser vítima de muitos mais problemas cardíacos, além de outros, até então “doenças de homem”, do que suas mães e avós, que se limitavam ao trabalho doméstico.

O pioneirismo do homem dessa geração, que compõe hoje a corte dos chamados adultos maduros, pode não ter sobressaído tanto como o da mulher, mas é evidente que ele também arrostou grandes novidades. Adaptou-se a novos costumes, pautou-se por novos valores, que eram estranhos aos seus antepassados. Adolescente, trocou as corretas meias brancas por escandalosas meias vermelhas, encontrou outras opções para vestir que não o paletó e a gravata, deixou os cabelos atingirem comprimentos impensáveis para seus pais e avós. Ouviu, tocou e dançou rock. E em seguida o twist, o hully-gully, os ritmos de discoteca e por aí afora. Passou a integrar um mercado de trabalho onde, além do fato novo de ter que lidar ombro a ombro com mulheres, às vezes até sendo chefiado por uma, a tecnologia começou a se aperfeiçoar a uma velocidade impressionante, até então desconhecida, e a produção de conhecimentos começou a jorrar aos borbotões, exigindo atualização permanente e flexibilidade, coisas que seus pais e avós não precisavam fazer. Evoluiu da máquina de escrever simples para a elétrica e desta para o computador; desde então, tem que dominar os novos programas que são criados em intervalos de tempo sempre muito curtos. Para propor mudanças e romper padrões, a geração pioneira passou por sofrimentos. Por exemplo, com frequência os pais foram desafiados e enfrentados e, é claro, as consequências (positivas e negativas) foram sofridas. Medo, desamparo, solidão, insegurança, incerteza, remorso, arrependimento eram sentimentos que coexistiam com o orgulho, o se sentir realizado, o idealismo.

Hoje, continuamos sendo pioneiros em compor uma geração que vai indo para a terceira idade novamente rompendo os modos de viver dos nossos antecessores. Parece que essa característica de pioneirismo é algo que não acaba jamais. Cá entre nós, ser pioneiro é cansativo e desgastante e parece injusto que continue para sempre. Quando penso nos pioneiros do Velho Oeste, me parece que eles conquistavam os territórios (a duras penas), se assentavam e podiam usufruir então de alguma rotina. Isso era mais do que justo. Podiam parar de batalhar e apenas colher o que haviam plantado. Para a minha geração, não houve a oportunidade de uma rotina; maduros, continuamos descobrindo vias inovadoras para nossas vidas. Depois de toda essa conversa ao telefone com minha jovem e estimulante interlocutora, comecei a pôr em dúvida se pertencer a uma geração pioneira foi tão vantajoso, tão motivo de orgulho assim… estar sempre desbravando e, portanto, sempre em conflito e em dúvida. Eu me pergunto com sinceridade se não foram mais felizes os que vieram antes de nós, com suas certezas, ou então os que vieram depois, com respostas já testadas. Porém, do fundo do coração, com toda a sinceridade, embora um pouco fatigada, eu não queria ter nascido em nenhuma outra época, pois não vejo como poderia ter sido mais emocionante, mais vibrante!

(*)Maria Celia de Abreu é psicóloga formada pela PUC/SP, onde completou o mestrado e o doutorado. Professora universitária por mais de 20 anos na PUC/SP, psicoterapeuta de adultos e fundadora e coordenadora do Ideac.