IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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Recentemente o Jornal The New York Times publicou matéria sobre uma experiência interessante realizada na Holanda para pacientes com demência. O autor é Ilvy Njiokiktjien e o texto foi traduzido para nossas redes sociais pela psicóloga Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac:

“Estamos perdidas”, disse Truus Ooms, 81, para sua amiga Annie Arendsen, 83, enquanto andavam juntas num ônibus urbano. “Sendo o motorista, você teria obrigação de saber onde é que estamos”, disse Ms. Arendsen para Rudi ten Brink, 63, que estava sentado no banco do motorista do ônibus.

Mas ela estava brincando.

Os três são pacientes demenciados em um estabelecimento ao leste da Holanda. O passeio de ônibus deles – uma rota pelas estradas planas e ladeadas de árvores da zona rural holandesa – era uma simulação que é projetada várias vezes por dia em três telas de vídeo.

É parte de uma abordagem não ortodoxa para tratamento de demência em que médicos e cuidadores holandeses têm sido pioneiros: aproveitamento do poder do relaxamento, de memórias de infância, auxílios sensoriais, música suave, estrutura familiar e outros instrumentos para curar, acalmar e estimular os residentes, em vez de confiar nas velhas receitas de repouso na cama, medicação e, em alguns casos, contenção física.

“Quanto mais se reduz o stress, melhor”, disse Dr. Erik Scherder, um neuropsicólogo da Vrije Universiteit Amstendam e um dos mais conhecidos especialistas em cuidados com demência.  “Se você baixar o stress e o desconforto, isso tem um efeito fisiológico direto”.

A simulação de passeios de ônibus ou em praias – como uma que existe num estabelecimento em Haarlem, não distante de uma praia real – criam um ponto de encontro para pacientes. A experiência compartilhada leva-os a falar sobre passeios anteriores e tirar um mini fim de semana em suas vidas diárias.

A demência, um grupo de síndromes relacionadas entre si, manifesta-se num declínio rápido das funções cerebrais. Rouba das famílias seus entes queridos e consome recursos, paciência e finanças.

Cerca de 270 000 holandeses – aproximadamente 8,4 por cento dos 3.2 milhões de habitantes com mais de 64 anos de idade – tem demência, e o governo prevê que esse número vai dobrar nos próximos 25 anos.

Em anos recentes, o governo tem preferido pagar “home care” do que manter um estabelecimento licenciado, de modo que a maioria das pessoas com demência vive em casa. Os estabelecimentos, que são administrados por particulares, mas contam com fundos públicos, são em geral reservados para pessoas em estado avançado da doença.

Nos anos 90, os holandeses começaram a pensar de modo diferente sobre como tratar a doença, afastando-se de uma abordagem medicamentosa. “Nos anos 80, os clientes eram tratados como pacientes em um hospital”, disse Ilse Achterberg, uma antes terapeuta ocupacional, que foi uma das pioneiras das salas “sensoriais” (“snoezel”), que combinam terapia por luz, aroma, massagem e som, e permitem que os pacientes relaxem e acessem emoções que são frequentemente bloqueadas em ambientes clínicos estressantes. Estas salas foram as precursoras de algumas das técnicas encontradas hoje em muitos estabelecimentos da Holanda.

Técnicas inovadoras

No lar Amstelring Leo Polak em Amsterdan, por exemplo, há a reprodução de um ponto de ônibus, onde Jan Post, um paciente de 98 anos de idade, muitas vezes se senta e beija sua esposa, Catahrina Post, quando ela o visita.

Mr. Post, que tem uma demência severa, só consegue criar 10 segundos de memória de curto prazo e tem medo de não encontrar o caminho de volta ao seu quarto quando sai dele.

“Setenta anos casados e ainda nos amamos”, disse Ms. Post, 92, que faz visitas várias vezes por semana. Recentemente, os Posts estavam bebendo e papeando no Bolle Jan, uma recriação de um restaurante real de Amsterdã, feita numa área de convivência do lar. Se os entornos eram falsos, o álcool era de verdade, e as piadas, frequentemente repetidas, provocavam gargalhadas verdadeiras. A cantoria, por vezes cambaleante, era entusiástica.

Enquanto cuidadores e acadêmicos acreditam que tais ambientes ajudam os pacientes demenciados a lidar melhor com a vida, é difícil chegar a uma evidência sólida de sua eficácia a longo termo, em parte porque essa condição é incurável.

Mas Katja Ebbbem, que trabalha com cuidados intensivos em Vitalis Peppelrode, um estabelecimento em Eindhovem, no sudeste do país, disse que ela notou que com as novas técnicas os pacientes precisavam de menos medicação e menos contenções físicas.

Willy Briggen, 89, que está em avançado estágio de demência, vive no estabelecimento de Eindhove. Como muitos demenciados, Ms Briggen algumas vezes fica impaciente, até mesmo descontrolada. Os surtos exigem um esforço da equipe da casa, que luta para lidar com sua frágil estrutura. Há uma década, teriam lhe prescritos drogas ou contenção para lidar com os rompantes.

Mas quando ela fica inquieta, a equipe liga um projetor no quarto dela, que produz imagens calmantes e sons suaves. Numa visita recente, Ms. Briggen foi de um estado emocional de óbvio desconforto para um de calma reflexiva, enquanto ela olhava para o teto de seu quarto particular, que estava enfeitado com a projeção de cenas da natureza, inclusive de patos.

Dos 210 residentes no estabelecimento Eindhovem, 90 têm demência e estão restritos a andares especiais para sua própria segurança. O prédio de tijolo aparente e vidros tem assoalhos de linóleo, tetos baixos e portas largas para permitir a passagem de camas sobre rodas. A despeito do estilo médico, sua decoração tem ecos de uma era passada, quando Ms Briggen teria sido uma menina.

Os andares exibem móveis antiquados, de madeira escura, e os cômodos são decorados com livros, telefones de discar e máquinas de escrever de 50 libras. As mesas da lanchonete são cobertas por toalhas de tecido e flores frescas. Eles não têm o odor de um hospital.

Ao repensar em como lidar com pacientes com demência, muitos centros focalizaram nos ambientes. Outra tática é reorganizar os residentes para criar agrupamentos de “família” de seis a dez pessoas.

Os residentes de muitos dos estabelecimentos holandeses têm seus próprios quartos, e são encorajados a considera-los seu território próprio. Com frequência há uma sala de uso comum e uma cozinha, onde residentes ajudam em tarefas como descascar batatas e lavar salada.

Na luta contra depressão e passividade, que são frequentemente sintomas da condição, os cuidadores também procuram estimular os residentes com atividades como dança.

Cuidados especiais

“É na verdade em relação a todas as pequenas coisas que compõem uma vida normal”, disse Pamela Grootjans, uma enfermeira de Sensire Den Ooman, o estabelecimento em Doetinchem que oferece o passeio de ônibus simulado.

Na moradia com cuidados especiais Christian Beth-San em Moerkapelle, próxima ao The Hague, Arie Pieter Hofman, 87, e Neeltje Hofman-Heij, 88, usam uma bicicleta simulada conectada a um  tambor posto em rotação quando pedalam para percorrer cenas de sua antiga vizinhança em Gouda, projetadas em uma tela plana.

A companhia que faz o passeio de bicicleta, Bike Labyrinth, vendeu o simulador a mais de 500 estabelecimentos na Holanda. O fabricante holandês dos projetores, Qwiek, diz que há unidades em 750 estabelecimentos holandeses.

“A ideia é desafiar um pouquinho o paciente, de um modo positivo,” diz Dr. Scherder, o neuro-psicólogo de Amsterdã. “Deixá-los numa cadeira, passivos, torna a progressão da doença muito mais rápida. “

Numa recente visita ao centro de cuidados Vreugdehof em Amsterdã, uma residente, Anna Leeman-Koning, 90, brincava com uma foca terapêutica robótica. Ela ajuda a trazer à tona velhas emoções, momentaneamente afastando a desorientação causada pela perda irreversível e progressiva das faculdades do paciente.

Mas a foca começou a sacudir demais sua cauda robótica, preocupando Ms Leeman-Koning. “Por favor se acalme, por favor se acalme,” ela disse. “O que posso fazer para acalmar você?”

Leia o artigo na íntegra em Inglês:

https://www.nytimes.com/2018/08/22/world/europe/dementia-care-treatment-symptoms-signs.html?utm_source=meio&utm_medium=email

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Por Eoghan Macguire, CNN – 24/agosto/2018

(Tradução da psicóloga Maria Celia de Abreu )

 

(CNN) – Qual é o segredo de viver até os 100? Alguns dizem que é garantir muito exercício; outros apontam para os benefícios de um clima ameno. Há até alguns que sugerem que uma vida sexual sadia tem muito a ver com isso.

O número de pessoas que vivem até os 100 anos pode ser relativamente pequeno, mas está se tornando mais comum – particularmente em países como o Japão, que tem a mais alta proporção de centenários no mundo.

Dados do Ministério da Saúde do Japão estimam que em 2017 havia 67.824 japoneses com 100 anos ou mais. Em 1965, quando o país começou a registrar estatísticas de cidadãos velhos, havia apenas 153 centenários.

Em resultado, os políticos no Japão começaram a considerar como prover para aqueles que chegavam ao clube dos 100 – e o que encontraram pode ser [útil para o resto do mundo nos próximos anos.

No ano passado, o Primeiro Ministro japonês Shinzo Abe conduziu uma série de encontros no Conselho para Planejar a Vida com Mais de 100 anos em Sociedade, um grupo de especialistas formado para preparar um aumento no número de centenários.

A comissão analisou questões tão diversas como reformar as políticas de seguro social, reavaliar o que significa ser mais velho e a diversificação de práticas corporativas de empregabilidade. Mas não é só para mais centenários que o país está tendo que se preparar.

Desafios de uma população que envelhece

Vinte e sete por cento da população do Japão tem 65 anos ou mais, de acordo com dados do Banco Mundial. Em 1990, era apenas 11%.

Enquanto viver mais é geralmente algo positivo, isso cria inevitavelmente uma porção de desafios práticos, tais como o fardo sobre o Estado para prover serviços, pensões e cuidados para um número crescente de velhos. No Japão, isto vem junto com um baixo índice de nascimentos, o que significa que há menos pessoas com idade de trabalhar para pagar pelos serviços para os velhos através de impostos ou de trabalho para companhias japonesas.

O número de recém-nascidos caiu durante 37 anos consecutivos no Japão, e o Ministério da Saúde faz uma projeção de que a população irá ascender de seus atuais 126.26 milhões para 86.74 milhões por volta de 2060.

Uma vida ‘multi-estágios’

Entre os que estiveram nos primeiros encontros do conselho de Abe, estava Lynda Gratton, professora de prática de negócios na London Business School e coautora do livro “Os 100 Anos de Vida: Viver e Trabalhar numa Idade Longeva”.

Quando considerando esta questão de populações que envelhecem, ela diz, é importante que os governos e empresas “contem uma história” sobre como as pessoas podem começar a viver “vidas multi-estágios” onde elas conseguem fazer pausas na carreira e trabalhar por mais tempo e em numerosas áreas. Esta “narrativa” ajudará a assinalar os desafios que virão e a encorajar a conversação sobre como será a vida em sociedades que envelhecem, acrescenta Gratton.

O governo japonês propôs estender a idade para aposentadoria obrigatória de 60 para 65 anos. Também mencionou encorajar uma “educação recorrente”, ajudando pessoas a serem retreinadas ao longo de suas carreiras profissionais, assim como permitindo que aquelas que quiserem trabalhar em idades avançadas o façam.

O Professor Hiroko Akiyama, do Instituto de Gerontologia a Universidade de Tóquio, acredita que estas são novidades benvindas, mas diz que o ritmo da mudança necessita ser mais rápido. “Nossa força de trabalho está encolhendo, então temos que tomar medidas drásticas agora,” disse ele.

Akiyama chama a atenção para como o escritório compartilhado, padrões de trabalho flexíveis e a telecomunicação podem todos desempenhar um papel e ajudar mais pessoas a ficarem por mais tempo em suas carreiras. As descobertas da inteligência artificial e da robótica, longe de reduzir oportunidades de emprego, também podem ajudar os mais velhos a trabalhar por mais tempo, compensando qualidades que as pessoas podem perder ao envelhecer, como por exemplo forca ou flexibilidade, ela acrescenta.

Além do mundo do trabalho, os sistemas de cuidados com a saúde serão provavelmente afetados por populações que envelhecem e forçados a se adaptar a isso. Política e valores também poderiam estar começando a se modificar, com os mais velhos sendo em geral considerados eleitores mais conservadores.

Lidando com um mundo que envelhece

O Japão tem sido uma das nações que mais visivelmente considera estes desafios, mas está longe de estar sozinho no ser afetado por eles.

A população global de pessoas mais velhas (aquelas com 60 anos ou mais) importava em 962 milhões em 2017, de acordo com o relatório das Nacões Unidas sobre o Envelhecimento Populacional (UN World Population Ageing). Isso é mais que o dobro do que em 1980, quando havia 382 milhões de pessoas mais velhas no mundo, e espera-se que o número dobre de novo por volta de 2050, alcançando cerca de 2.1 bilhões.

O envelhecimento das populações é mais pronunciado na Europa e na América do Norte, segundo o relatório. O Escritório de Censo dos Estados Unidos (US Census Bureau) projeta que o número de centenários lá irá inflar de 86,248 em 2017 para 600,000 por volta de 2060. Até o momento estas questões também estão pesando nas considerações de Hong Kong, Coréia do Sul, Singapura, Austrália e Nova Zelândia.

Lá por 2050, espera-se que as pessoas mais velhas componham 35% de populações na Europa, 28% na América do Norte, 25% na América Latina e Caribe, 24% na Ásia, 23% na Oceania e 9% na África, segundo estimativa do relatório das Nações Unidas.

Gratton aponta desenvolvimentos positivos na Dinamarca, que tem procurado por cenários para futuro cuidados com os mais velhos, e Singapura, que ela diz que tem revisto suas políticas e removido quaisquer sugestões de que pessoas mais velhas podem ser menos capazes de desempenhar certas tarefas ou papéis do que pessoas mais jovens.

Akiyama, enquanto isso, diz que o Japão tem sido forçado a considerar a questão antes do que a maioria das nações devido ao ritmo em que sua população está envelhecendo. Os políticos do país também parecem menos ávidos do que outros para atrair jovens trabalhadores estrangeiros.

Idade de oportunidade?

Hoje em dia também pode haver oportunidade dentro dos desafios de uma sociedade que envelhece.

Os negócios no Japão começaram a abrir academias de fitness que atendem aos mais velhos, enquanto cuidadores robôs têm sido introduzidos em moradias para idosos, aparelhos caros que podem se tornar lucrativos itens de exportação.

Gratton diz que o Japão está à frente de robôs e máquinas que assistem os mais velhos enquanto “os que tem mais de 55 estão gastando mais do que qualquer um” no país.

Entretanto, ela acrescenta que os países precisam também começar a planejar globalmente para um futuro no qual a vida tradicional em três setores, estudar, trabalhar e se aposentar, não se aplica mais.

As pessoas tornaram-se muito mais proativas”, ela diz. Tanto quanto planejar, economizar e manter-se saudável, ela precisa ser mais esperta sobre como será o futuro.”

Em vez de pensar sobre ficar ainda mais velhas, as pessoas deveriam pensar sobre ficar mais jovens por mais tempo.

Link do artigo em inglês: https://www.cnn.com/2018/08/24/health/japan-100-year-life/index.html

 


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“Quanto tudo acaba? – Quando o cérebro para de funcionar, diz o médico. Quanto o coração para de pulsar, diz o teólogo. Quando o pé para de dançar dizem as musas”.
Do livro Música, Inspiração e Criatividade, de Jon-Roar Bjorkwold (Summus Editorial)

Certamente, os músicos também diriam que a morte acaba quando o ser humano perde a capacidade de se maravilhar e de criar novas sinfonias. A música está presente em todas as fases da vida e, mais ainda, no envelhecimento. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Ele foi convidado pelo geriatra para falar durante o congresso e mostrar sua experiência com dois grandes nomes do mundo da música, com uma história parecida: a pianista Magda Tagliaferro (falecida em 1986, aos 93 anos de idade) e o cravista Roberto de Regina, com 91 anos e que ainda toca.

“Vamos nos dando conta de que no meio da música clássica há muitos casos de longevidade e, coincidentemente, esses meus professores tocaram até os 90 anos de idade em concertos em salas importantes como Londres Nova Iorque. E não é só na música clássica, há muitos músicos longevos inclusive no rock, como Mick Jagger”, comenta Marcelo.

Outra observação do músico, é a de que geralmente são pianistas, regentes ou cravistas que tocam até mais tarde: “No caso do canto, por exemplo, é mais difícil, o instrumento está dentro das pessoas e o envelhecimento fica mais evidente. Com o instrumento de corda e sopro a relação é diferente, ao contrário do teclado, que por uma questão fisiológica facilita a continuidade com a passagem dos anos”, ele diz.

Para Fagerlande, a música acompanha o ser humano em várias fases, é muito presente no processo de envelhecimento e nas memórias: “Eu não conheço a vida sem música, e acredito que é assim para todos que optaram pela música não por dinheiro ou fama, mas para percorrer um sonho, o que faz toda a diferença. Claro que é uma atividade que tem um desgaste físico e exige muito do corpo e da mente, traz cobranças. Há uma certa romantização de que a atividade física é inspiração, mas o público só vê o resultado final e não todo o esforço feito entre quatro paredes. Sempre foi difícil viver de arte em todas as épocas”.

Sobre Tagliaferro, ele conta que ela morreu com uma memória prodigiosa, tocando tudo sem partituras: “O curioso é que a memória está sempre presente, seja tocando em partituras ou não. Tem uma questão cognitiva, neurológica e cerebral e o músico trabalha para conquistar esse equilíbrio. A música é importante para a criança, para o jovem, para o adulto e para o velho, quando ela é feita com a alma está sempre presente”, conclui.

Sobre Marcelo Fagerlande

Nascido no Rio de Janeiro, é graduado em cravo com grau máximo pela Escola Superior de Música de Stuttgart (em 1986, na classe de Kenneth Gilbert) e Doutor em Musicologia pela Uni-Rio (2002). É professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1995.

(*) A série continua amanhã em nossas redes sociais, trazendo histórias de músicos com mais idade, encantados pelo trabalho


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O sonho de acordar sem despertador, fazer o que quiser durante o dia e não ter mais chefe pela frente às vezes pode virar um pesadelo para o aposentado.

“Não é só o “aposentando” que é afetado; os que convivem com ele também o são Por vezes, sutilmente, passam a depreciá-lo, deixá-lo de lado, dispensar suas opiniões, não levá-lo a sério – ou a superprotegê-lo, tolhendo suas iniciativas e decisões. Há também famílias que veem o tempo disponível do aposentado como uma oportunidade de ele ser útil, induzindo-o a assumir as funções de babá, cuidador, office-boy, motorista, cozinheiro, passeador de cachorro etc sem questionar se isso o faz feliz e realizado.

Não o fazem por maldade, nem de modo deliberado – são pessoas inseridas num contexto cultural que favorece tais valores e os comportamentos que deles derivam. Há também arranjos práticos a ser feitos na rotina doméstica, pois aquele indivíduo que saía pela manhã e voltava à noite cinco dias da semana agora fica o dia todo em casa, enxerga detalhes com os quais nunca se incomodou, reivindica um espaço que nunca ocupou

Assim, a nova paisagem da estrada da vida trazida pela aposentadoria exige readaptações, estabelecimento de novos limites, flexibilidade, boa vontade, esclarecimento de valores e sentimentos e autoconhecimento – necessitando tanto o aposentando como seus próximos dispor-se a chegar a um bom termo de convivência. Quem se aposenta costuma ter uma diminuição de renda e precisa lidar com questões ainda a hora de abdicar de decidir sobre o que lhe pertence, outorgando a outrem essa autoridade – nem de ficar passivo e omisso, naquele desastroso “deixa como está para ver como é que fica”. Aprender a lidar com dinheiro demanda esforço, mas é compensatório. Para encará-lo como ferramenta capaz de propiciar segurança, escolhas, liberdade, diversão e ajuda, deve-se percorrer um caminho de aprendizagem: fazer e seguir um planejamento financeiro. Sugiro que o leitor recorra à consultoria de um especialista, um profissional que lhe mostre as melhores maneiras de fazer investimentos e esquematizar um orçamento adequado à sua realidade, dentro de um planejamento financeiro equilibrado”.

Esse texto é do livro “Velhice – uma nova paisagem”, da psicóloga Maria Celia de Abreu, lançamento da Editora Ágora. O livro pode ser encontrado no site das grandes livrarias e da Editora Summus: http://www.gruposummus.com.br

 


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foto Guilherme Sanchez

A solidão não é boa companheira, principalmente para quem está na maturidade. Estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco (matéria da Folha abaixo) revela que pessoas solitárias têm maior taxa de mortalidade e risco de depressão e declínio cognitivo. Mesmo pessoas de mais idade devem estar abertas para novos relacionamentos e novas oportunidades de convivência.

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Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac, diz que o idoso de hoje deve reunir energia, persistência e criatividade para ir em busca de uma ampliação de sua rede de relacionamentos: “Há pessoas naturalmente mais sociáveis e expansivas, outras naturalmente mais introvertidas. Com frequência, as mulheres são mais ricas em amizades do que os homens. Não se trata de uma contagem numérica, nem de um concurso que ganha quem se relaciona com maior número de pessoas. Trata-se de cultivar relacionamentos de qualidade, porém, lembrando que é preciso ir atrás deles, cuidar, alimentá-los, principalmente quando tudo está indo bem… porque essa é uma das munições de melhor qualidade para sustentar uma pessoa quando nem tudo vai tão bem!”

Convivência saudável é uma das preocupações do Ideac, que desde 2001 realiza cursos e atividades para pessoas na maturidade. Em breve divulgaremos nossa programação para 2017 que inclui os cursos de Fotografia, Espiritualidade, Os desafios do envelhecimento, Redes Sociais, Meditação e outros. Aguardem!

Essa pesquisa, publicada pela Folha de SP, vai no mesmo sentido dos achados do mais longo estudo longitudinal já feito com seres humanos, o Harvard Study of Adult Development, que durante 75 anos, desde 1938, segue a vida de homens adultos, perguntando o que é que torna a vida feliz e saudável; iniciou com 724 homens e, em 2015, ainda permaneciam 60 como sujeitos da pesquisa; os resultados são relatados pelo seu pesquisador-chefe atual, Robert Waldinger, num vídeo bem interessanate para o TED cujo link é o seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=8KkKuTCFvzI


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Por Nan Waldman, Alive. https://www.quora.com/

Quais são as 3 coisas que cada pessoa deveria fazer antes de morrer?
Texto traduzido, editado e reescrito por Ana Fraiman, 2016.

Estive à cabeceira da cama de muita gente! E amei cada um deles em sua passagem. E isto é o que aprendi com eles que já se foram, pessoas a quem eu ainda amo e de quem sinto muita falta:

  1. Tenha seus documentos em ordem e não deixe nada mal esclarecido, coisas e situações confusas, para aqueles que também o amaram. Sua ausência já será dolorosa demais. Lidar com a sua desorganização será demais para aqueles que estiverem de luto por você. Deixe por escrito tudo que você tem a legar. Não basta dizer qualquer coisa antes de morrer. Coloque tudo claramente num papel e assine.

Muitos poderão não aceitar ou não acreditar. Você não desejará que eles se engalfinhem por conta de desavenças muito antigas, porque é isso que acontece: ninguém briga por dinheiro ou por bens numa hora dessas. As pessoas brigam por ciúmes, por predileções, por dores que foram caladas, que estiveram represadas por anos e anos e que, justamente na hora da dor – ou do alívio – elas emergem.

Segredos são revelados. Mentiras são desmascaradas e o pano de fundo é o dinheiro. Máscaras caem e aqueles que não tiveram caráter agirão com frieza. Você pode ter querido esconder suas percepções do mau caratismo de algum ou de alguns deles, esconder até de você mesmo, talvez porque tenha sido doloroso demais admitir que um filho, pai ou irmão, até mesmo um neto, tenha sido tão cruel e insensível por prazeres mesquinhos. Inclusive com você.

Antes de morrer, tomara você tenha se perdoado por ter sido cúmplice silente de tantas violências familiares, às quais você se furtou enfrentar e, com isso, ajudou a perpetrar. Violência em família é assim: tenta-se camuflar, mas as marcas se mostram e, justamente nessa hora. Não basta pensar que o problema será deles, porque você jã não estará mais aqui. Despeça-se da vida, senão com amor, com decência.

E tomara, também, você tenha aprendido sobre amar: não amamos alguém porque esta pessoa é boa, atenciosa e presente. Nem porque elas nos amem, também. O amor se basta. E, mesmo que esta pessoa jamais haja demostrado qualquer sinal, um resquício de amor você, se aproprie do amor que você sentiu por ela.

E não se esqueça de agir com bom humor! Pregue-lhes peças. Decepcione. Ou os presenteie carinhosamente, antes de partir. Depois de morto, você não terá mais nada a dizer ou fazer.

Isso quer dizer: deixe tudo por escrito e com cópia, nas mãos de alguns em quem você confie. E se não houver ninguém em quem possa confiar, contrate um advogado e encare bem a sua morte: ela poderá aliviar as suas dores.

  1. Expresse seu amor enquanto você pode. Todos os dias das nossas vidas trazem consigo um mistério. Ninguém sabe explicar porque acordamos vivos! Com certeza, também para todos nós, haverá um dia em que acordaremos mortos. Os outros saberão disso, mas você não. Uma coisa boa: aprenda libras, a linguagem dos sinais. Nunca se sabe o momento em que não poderemos nos comunicar direito, porque estaremos entubados e não poderemos falar.

Também não precisa ser tão pessimista. Faça o que tem que ser feito e esqueça. Viva como se a morte fosse alguma coisa que só acontece com os outros. Hum, faça planos de futuro. Serão uma boa distração. Pode até ser divertido. Não pense na morte. Ela não precisa ser chamada, é uma convidada manhosa que só aparece quando ela quer.

  1. Faça as pazes com o seu passado, seja lá como isso se manifeste. Você simplesmente faz o que todos fazem: tentar viver o melhor possível, enxergando suas vidas de algum ângulo que lhes é muito peculiar. Não existe um jeito certo de viver.

Muita gente só tem seus valores e méritos reconhecidos quando já não mais estão entre nós. Pessoas maravilhosas podem ter vivido vidas trágicas! Porém não tente viver pela metade, para morrer menos. Chegada a sua hora, você irá com tudo!

Descanse e encontre conforto e graça naquilo que você viveu. Terá sido a sua história e de mais ninguém. Honre a sua história. Deve ter acontecido muita coisa hilária. E ridícula.

Ninguém escapa de ser patético, vez por outra. Dom Quixote, o cavaleiro andante de triste figura foi um grande herói! E soube amar sua Dulcinéia, mulher de difícil vida fácil, sem a menor autoestima, por quem se apaixonou perdidamente, elevando-a ao nível mais sublime da experiência humana: despertou nela, também, o amor.

Seja lá o que você tenha sido ou vivido ao longo de seus muitos anos, agora não há mais nada a fazer. Não dá para voltar atrás, quando muito, dá para se arrepender e, depois, se perdoar por tamanha ignorância, já que nos tornamos sábios somente quando bem mais velhos.

Pouca coisa poderá ser corrigida. Talvez uma injustiça, uma dor moral que você tenha infligido a alguém. Reconheça isso e, se a pessoa ainda estiver viva, procure deixa-la saber que você reconhece seu erro tolo. Fará bem a ela e, talvez, também a você.

Nos últimos momentos de lucidez – e agora é um bom momento para ser e agir com lucidez, respire fundo e fique em paz.

Relaxe. Aceite. Sorria docemente. Acolha em seu coração, seja lá o que for e, deixe ir. Respire e siga o seu caminho.


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brincadeira

(*) Maria Celia de Abreu

Para a sociedade funcionar como deve, o trabalho é um fator essencial. Ora, brincar é o trabalho das crianças. É fundamental para a infância funcionar como deve! As brincadeiras são diferentes conforme a idade e conforme a herança cultural. Cada criança tem um estilo diferente de brincar e gosta de brincar com coisas diferentes. Muito novas, brincam sozinhas; depois, ao lado de outras crianças; por fim, estão capacitadas para interagir e para cooperar (o que não quer dizer que abandonem seus momentos de brincar sozinhas). Na brincadeira solitária, são estimulados o desenvolvimento cognitivo e físico.

Em grupo, pratica-se habilidades interpessoais e de comunicação, experimenta-se papéis e obedece-se a regras. Por exemplo, quando a criança pequena, brincando sozinha ou ao lado de outra, constrói uma torre empilhando blocos de cores e formas diferentes, estabelece bases para os conceitos da matemática, coordena a visão com o movimento, aprende a usar músculos, discrimina formas, tamanhos e cores.

O faz de conta inicia como solitário e evolui para os jogos dramáticos que envolvem outras crianças. Nele, os pequenos experimentam papéis novos, enfrentam emoções desconfortáveis, colocam-se no ponto de vista de outros e não se sentem ameaçadas por tais “ousadias”, uma vez que sabem que estão atuando no plano da imaginação.

Ao lançar um pano sobre os ombros e “tornar-se” um super-herói, a criança experimenta ser poderosa, bondosa, importante, diferente etc. e também como é ser percebida pelos outros desse jeito. O faz de conta exige abstração da realidade, uma capacidade cognitiva, portanto, não costuma aparecer antes dos dois e meio ou três anos de idade. As crianças que costumam brincar assim são em geral mais cooperativas com outras crianças, mais alegres e possivelmente mais criativas. Assistir televisão por muitas horas dificulta brincar usando a imaginação, não só porque não sobra muito tempo, como porque a TV estimula a receber mensagens passivamente, em vez de inventar as próprias.

Crianças com seis anos ou mais já são capazes de entender e apreciar jogos sociais com regras formais, como pular corda, jogar bolinha de gude ou futebol de botão. São brincadeiras que preparam emocional e socialmente para viver em sociedade, quando forem adolescentes e adultos. É função dos adultos da família proporcionar ambiente e momentos para suas crianças poderem brincar. Com muita alegria, e sem serem censuradas por estarem “perdendo tempo”, porque na verdade elas estão exercendo tarefas legítimas e indispensáveis para um desenvolvimento saudável e harmonioso.

(*) Maria Celia de Abreu é Psicóloga formada pela PUC/SP, onde completou o mestrado e o doutorado. Professora universitária por mais de 20 anos na PUC/SP, psicoterapeuta de adultos e fundadora e coordenadora do Ideac.