IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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Por Maria Celia de Abreu (*)

É muito bom saber que um fato acreditado pelo senso comum é referendado pela Ciência. É o caso de um estudo de pesquisadores do Instituto Pasteur, na França, e da Universidade de Haifa, em Israel, tema do artigo de Suzana Hercula Houzel na Folha de S. Paulo, dia 31 de julho.

As pesquisas concluem que duas pessoas de mãos dadas têm as ondas de seus respectivos cérebros sincronizadas. Em ambas se estabelece uma sensação prazerosa e, se uma delas está com dor, surge um efeito analgésico, enquanto aumenta a capacidade de empatia da outra.

Trabalhos de observação de comportamento, bem como a sabedoria popular, já indicavam a importância do toque para a saúde emocional e física do idoso, e dos prejuízos quando ele não existe. Claro que, como em todas as regras, há quem sinta o toque físico como desagradável, ou até mesmo insuportável, mas essa é uma minoria.

Infelizmente, dentro de uma cultura que desvaloriza o velho, e que também associa toque físico exclusivamente ao sexual, o velho é muito pouco tocado, afagado, abraçado, acariciado, massageado.

Precisamos divulgar que preconceitos levam a um desnecessário estreitamento de expectativa, e que a neuropsicologia tem feito descobertas marcantes que podem melhorar muito a qualidade de vida das pessoas em geral, e dos nossos velhos em especial.

(*) Maria Celia de Abreu é psicóloga e coordenadora do Ideac, autora do livro “Velhice, uma nova paisagem” (Ed. Ágora)

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Por Maria Celia de Abreu (*)

A vida é uma grande aventura. Cheia de desafios e de surpresas. Com momentos de felicidade e outros de dificuldade. Cabe a quem percorre o caminho da vida semear boas probabilidades para seu próprio futuro, bem como prestar mais atenção às coisas boas do que às complicadas. Vivemos num mundo violento, desigual, injusto. Mas dentro dele podemos buscar ilhas de harmonia, de calor humano, de procedimentos éticos. Contamos com a sorte, mas também com nossos esforços, nossa batalha, persistência e com um não ceder a concessões baratas.

Não há receitas prontas para viver e envelhecer bem. O que é bom para um pode não ser bom para outro! Acho que a pessoa deve ser coerente com valores éticos, ser capaz de prestar atenção no outro e trabalhar duro pelos seus projetos e sonhos. O mais importante, parafraseando o psicanalista Viktor Frankl, não é descobrir o que você quer da vida, mas aquilo que a vida quer de você. Na maturidade é mais fácil, o velho se conhece bem, sabe do seu potencial e pode buscar alternativas inclusive para retribuir à sociedade o que recebeu.

Uma das necessidades principais do ser humano é a de pertencer. Pertencer a uma família, a um país, a uma empresa ou profissão, a um clube, a um partido político… É por esse caminho que uma pessoa se reconhece, que se sente com uma determinada identidade. O idoso que encontra um espaço que lhe agrada e se sente pertencendo a ele tem uma boa vantagem para a sua qualidade de vida. Outra necessidade humana fundamental é a de conviver com outras pessoas. Pertencer e conviver, sentir-se útil, trocar afetos com familiares e amigos, aprender, confirmar a própria identidade, abrir novas áreas na vida, favorecem a saúde emocional e física de qualquer pessoa, incluindo-se a do idoso. Conserve seus amigos, busque novos amigos, convide pessoas para sair, para frequentar a sua casa e aceite convites também. O preço de quem não consegue isso é o amargo sentimento de solidão. Vale a pena investir em bons relacionamentos, eles influem muito na nossa saúde física e mental.

(*) Maria Celia de Abreu é psicóloga, coordenadora do Ideac e autora de “Velhice, uma nova paisagem”


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Por Maria Celia de Abreu

 Para quem se informa sobre o fenômeno do crescente envelhecimento populacional, já é notório que lidar com a explosão da longevidade, a diminuição dos nascimentos e a consequente inversão da pirâmide demográfica no Brasil é o grande desafio do século XXI.

A via mais lembrada para sanar a problemática que surge com essa mudança demográfica é a via política e legal.

Leis até agora vigentes nem sempre atendem às novas necessidades desta sociedade que envelheceu. Precisam ser revistas, adaptadas a nova realidade, ou então criadas. Embora haja leis que favorecem o idoso e que já foram aprovadas, nem sempre elas são conhecidas e, portanto, é como se não existissem, e uma frente de conquistas é lutar para que elas se façam valer.

Ainda há um terreno enorme a ser explorado, por políticos e por legisladores, em prol da causa do idoso e de uma sociedade justa. Terreno vasto e complicado, pois esbarra em questões práticas, como o equilíbrio financeiro do país, mas imbricado com complicadas decisões baseadas  na bioética.

Porém, há outro terreno, cuja exploração, a meu ver, é imprescindível para que se estabeleçam mudanças, mas que é muito pouco mencionado. Antes de me envolver com o estudo da Psicologia do Envelhecimento, minha primeira área de interesse acadêmico foi a Psicologia da Educação. Talvez por conta dessa minha formação –talvez devesse dizer paixão – acredito que o novo velho do século XXI precisa se educar para viver mais e com qualidade de vida, e para aproveitar as enormes modificações introduzidas pelo progresso da tecnologia.

Acredito também que o profissional que interage com este novo velho precisa se educar para desempenhar adequadamente suas funções, uma necessidade presente sempre, mas muito evidente para os profissionais da área da saúde.  Por um lado, deve conhecer e compreender o interlocutor, com suas características e diversidades, para poder atende-lo, e até aí não há nada de novo. Por outro lado, o profissional precisa se conhecer e ser capaz de identificar em si mesmo preconceitos e rejeições que eventualmente tenha em relação ao velho, e que serão obstáculo à boa qualidade de seu trabalho.

Considerei da maior importância expositores que levantaram essa questão.  Apareceu, por exemplo, em debates sobre como lidar com a sexualidade na velhice, sobre declaração antecipada de vontade(ou seja, para abordar esse assunto com um cliente idoso, o profissional precisa estar despido de preconceitos e de medos), e foi  tema de um painel chamado Educação para o Envelhecimento.

Parabéns aos expositores que destacaram esses pontos, e parabéns aos organizadores do XXI Congresso da SBGG, que deram abertura para eles!

(*) Maria Celia de Abreu é psicóloga, coordenadora do Ideac e autora do livro “Velhice, uma nova paisagem”


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Durante os encontros do grupo O novo da velhice, orientado pela psicóloga Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac e autora do livro “Velhice, uma nova paisagem”, um dos temas trabalhado foi como enfrentar as perdas. Com inspiração nas sugestões que estão no livro (págs 94-109 e 126-128) e partindo das experiências pessoais dos participantes, o grupo listou alguns recursos, úteis para amenizar as perdas, que são inevitáveis no curso das nossas vidas. Para a psicóloga, essa não é uma lista fechada, mas a ser enriquecida por cada um.

Veja as sugestões e aposte no que faz sentido para a sua vida:

Exercícios Físicos

Ocupar-se

Compromisso de trabalho

Relacionamentos

Cercar-se da família

Não ter vergonha de recorrer a amigos

Procurar ajuda profissional

Espiritualidade

Ioga

Resiliência ou flexibilidade

Desenvolver o desapego

Vivenciar o luto

Chorar, não engolir o choro

Não ter vergonha de lembrar o que viveu

Aceitação do que é inevitável

Transformar o sofrimento em saudade

Escrever cartas para quem tinha falecido

“Conversar” com a pessoa perdida


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Esse foi um dos temas do curso de Memória e Criatividade do Ideac, coordenado pela psicóloga Sonia Fuentes. Os alunos fizeram ótimos textos e um deles é o que publicamos hoje, da pedagoga Cleide Martins.

Comidas com gosto de mar

Esse tema me levou ao passeio que fiz na cidade do Rio de Janeiro,  em janeiro de 1975, com 23 anos. A primeira vez que vi o Rio. A cor do mar, da areia e do céu. As formas deslumbrantes dos montes enfeitando a orla , o calor dos abraços do Cristo , adoçados pelo Pão de Açúcar !

A vista, meu Deus, ai que vista do Corcovado. O sol vencia as nuvens e devagar a cidade se revelou. Que maravilhosa!

Hoje, passados 42 anos, fechando os olhos físicos, usando dos olhos da memória eu vejo melhor Copacabana, a Gávea e a Lagoa!

A estrada verde que leva ao Cristo e as flores do campo!

Naquele dia fiquei estonteada e apaixonada. Achei que conhecia aquele cheiro, mas qual o cheiro ? Como assim? Logo eu que não sei identificar cheiros. Mas depois, entendi.

A mesma sensação de quando vi o mar pela primeira vez! Não sei precisar o ano, mas eu teria no máximo 12 anos e morava no interior de São Paulo quando fui com um grupo de excursão para Santos. Lembro da praia do Zé Menino, onde tomei meus primeiros tombos nas ondas e virei um camarão descascado. Se existia bloqueador solar, desconhecia.

O gosto que ficou em minha garganta e passou às narinas, em forma de cheiro foi do sal.  Um bem estar incrível, acho que já tinha pressão baixa, e o nível do mar me acolhia com uma leveza deliciosa. 

Assim, posso dizer que conheço o cheiro de mar pelo gosto que me invade as narinas e as papilas gustativas. Só hoje, fazendo essa retrospectiva entendi por que gosto tanto de comidas que misturam o doce com Salgado , doce com azedo, são comidas com gosto de mar, pinceladas de Pão de Açúcar e Vista do Corcovado.


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Durante a Oficina de Memória e Criatividade realizada pelo Ideac e coordenada pela psicóloga Sonia Fuentes, um dos exercícios foi escrever sobre o tema “Cheiros e sabores da infância”. O médico Jader Andrade, um dos participantes, fez um belo texto. Confira:

O cheiro da mãe e outras lembranças

A infância está perdida nas lembranças.
Mas pensar em cheiros e sabores, de imediato me remete à minha mãe. Mãe amorosa que refletia seu amor na comida que preparava,
no cuidado com o sabor do que fazia…

Mas, buscando lá no fundo, também vem o cheiro da loção Aqua Velva que meu pai usava após se barbear…
e o cheiro daquela água da represa artificial, com seu lodo… devo ter percebido mais fortemente naquela vez em que ele caiu no laguinho, lá no Parque Municipal, para canoa em que estávamos não virar…

Lembro também do cheiro da tia Néa,  que de tanto ficar deitada, fechada em seu quarto lá em casa lendo jornais, se misturava com o das letras.

Vem também o cheiro de mar em Copacabana. Sorvete de creme da Kibon e Chicabon. Cheiro de pé de moleque na festa junina no grupo escolar. Cheiro de vela no ar, na Igreja São José. No carro da família do colega de colégio, íamos para o sítio… olha o cheiro do estofamento e o cheiro do caminho!

Na hípica, o cheiro dos cavalos!
Para os Natais, castanhas portuguesas, com certeza. O tilintar da válvula da panela de pressão liberava o odor obrigatório para a noite do dia 24 de dezembro.
Sinalizava que o saboroso pernil, o vinho com água e açúcar e a canela das rabanadas, maciamente deliciosas, estavam chegando. A Pastelândia, lá no centro da capital mineira, animando a volta das compras no Mercado Municipal nas manhãs de sábado. O cheiro da fritura ainda vem: “de queijo, por favor”. Não era regalo pra todas as vezes, mas a esperança esteve ali.

Minha mãe mesmo, não gostava de tudo, mas tínhamos, eu e meu irmão que comer.
”Até 18 anos você come o que eu mandar. Depois você pode escolher”, ela dizia, imperativa. Eu não gostava de milho, o cheiro dele cozido me nauseava (e talvez ainda hoje o faça, até evito). De coco continuo sem gostar.
Verduras não eram meu ideal de paladar, só obrigado!
Mas os cheiros de outros quitutes ainda podem vir facilmente se deles lembrar. Brevidades, com polvilho Royal, por ser melhor.
Pães de batata.
E a raspa da massa de bolo feito aos sábados e disputada com meu irmão. Foi preciso determinar: em cada sábado um come.

O restinho das latas de leite condensado, esperava também por um dos dois filhos de D. Iaiá, como ela mesmo se intitulava, vai saber por que. Sorvete de chocolate, meio talhadinho, mas que era tão bom!
Feijoada… Ah a feijoada. Precisou tentar substituir o feijão carioquinha ou jalo pelo feijão preto diariamente para ver se eu comeria menos.
Não adiantou, só o passar dos anos diminuiu este desejo.
Ficou um cheiro.
O cheiro de mãe. Pó de arroz e perfume nos dias que saía. 
Lembranças.


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Desenhar um idoso e definir o que espera desse idoso foi um dos exercícios dos encontros “O novo da Velhice”, que está sendo realizado no Ideac e coordenado pela psicóloga Maria Celia de Abreu. A surpresa veio quando uma das participantes (a mais nova do grupo), Ana Rosa Gonçalves Cazanire Freitas, trouxe, além do dela, também um desenho feito pela filha Amanda, de 9 anos, com um comentário que deixou todos emocionados.

Olha só:

“Eu espero grandes feitos desse idoso, por que não é só porque a pessoa é idoso que ela não pode ser capaz, muito pelo contrário. Eu sei que as pessoas podem achar esquisito, mas eu iria gostar de ser idosa, pois isto significa que Papai do Céu me deu muito tempo para viver. E olhando para uma pessoa assim, me dá vontade de me aproximar e por isso que é muito bom ser feliz”.

Não é lindo ter esse retorno de alguém tão jovem? Dá esperança que é possível, sim, vencer o preconceito que o envelhecer encerra. Valeu Amanda, parabéns pela sua sensibilidade.