IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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Velha pra viver?

Velha pra sonhar?

Velha pra trepar?

Velha pra se olhar?

 

Velha sim,

Mas sem neuras com velhice

Sem neuras com a artrite

Sem neuras com o espelho

Sem neuras com o branco do cabelo

 

Velha sim,

Mas com projetos pra pensar

Com sabedoria pra compartilhar

Com muita vontade de ser feliz

Com muito amor para dar

 

Velha na idade

Velha no RG

Velha na cronologia do tempo

Que vem, que passa naturalmente

Como natural é o envelhecer

De quem assume o que sente

 

Feliz Dia da Mulher!

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O que há de novo no Natal?

Há o que sempre existiu

Mas nem sempre se vê

 

Há o velho chamado para

Amar, compartilhar e celebrar

Um nascimento

A vida

A família

Os afetos

Há o velho chamado para

Agradecer

Perdoar

Abraçar

E recomeçar

Mas…

Pode haver um novo chamado

Para o Natal

Que deve ser olhado

Com ternura dentro e fora de nós

Esse não se repete

Não depende de enfeites

Não depende de festas

Não depende de companhias

Ele simplesmente existe. E se basta!

Feliz Natal


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O Ideac publica hoje uma homenagem ao grande Jorge Luis Borges com seu poema “Elogio da sombra”, em que ele fala sobre a velhice. O tema inspirou muitos escritores famosos e vale a pena voltar a esses textos primorosos.

Elogio da sombra

(Jorge Luis Borges)


A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.


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cebola

(Pablo Neruda)

Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.

Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.

Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona

e vive a fragância da Terra
na tua natureza cristalina.