IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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(Homenagem do Ideac ao Dia da Criança)

E um dia eles chegam à sua vida
E não tem nada a ver com filhos
São novos elos da mesma corrente
Netos são sementes de suas sementes

De repente tudo fica mais bonito
As dores do corpo amenizam
As dores da alma acalmam
Tudo vem com um novo rito

O primeiro sorriso, o primeiro dente
A primeira palavra, o andar vacilante
Você já passou por isso,
Mas agora é bem diferente

E quando vem o primeiro chamado
O mundo fica mais colorido
Vovô, vovó!
Agora sim, tudo faz sentido

E você vai atrás de suas histórias
De vida, de fadas, de quem ficou para trás
Seu tempo é ligar passado e presente
Trazer as origens, reviver memórias

Os avós têm uma rica missão a cumprir
Dar amor, dar apoio e segurança
E antes de partir sentir a força
De ter deixado valores como herança

E vivam as crianças!
E vivam os avós!
E vivam as lembranças!

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ideac

por Ivani Cardoso

(foto Maria Celia de Abreu)

 

Eu busco dentro de mim

O céu, as nuvens e os raios

Os planetas, os cometas e as estrelas

Todos os anéis de Saturno

E o arco-íris para iluminar meu tempo

Eu busco dentro de mim

O vulcão da paixão interrompida

O gelo do amor inacabado

A força da cordilheira

E a paz imaginada do deserto

Eu busco dentro de mim

O furacão para levar os medos

O tsunami para lavar as mágoas

O pântano para engolir a loucura

E o oceano para navegar os sonhos

Eu busco dentro de mim

A tal ave do paraíso

O canto da cotovia

A ostra e a pérola reveladas

Busco e não encontro

Em mim ou fora de mim

Sou o que sou

E afinal, o que sou?

Acho que sou uma ilha

Cercada de lágrimas por todos os lados


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GIKOVATE

Nos setenta anos, Flavio Gikovate publica uma autobiografia – um texto honesto, sincero, através do qual se pode conhecer sua trajetória profissional, muito bem-sucedida por sinal, e entender as principais variáveis que a estiveram influenciando. Chega tranquilo a esta altura da vida, colhendo frutos que plantou.

Está cumprindo a tarefa psicológica principal da velhice, segundo Erik Erikson: a generatividade, o devolver para a sociedade o que dela recebeu. Bem antes, porém, já cumpria essa tarefa psicológica – embora não faça menção da influência que exerceu sobre outros psicoterapeutas no seu livro autobiográfico, faço questão de “denunciá-lo”!…

Em vídeo, gravou no ano passado um curso sobre psicoterapia breve, revelando a jovens terapeutas não só seu conhecimento, como também os meios que o conduziram a ele, permitindo que trilhem um caminho equivalente. Trata-se de um curso precioso, único.

Muitos anos antes, fui presenteada com esses ensinamentos, pois foi a convite de Flavio que ampliei minha carreira profissional, até então só dedicada ao ensino universitário, para a prática clínica. Um convite muito honroso, que abriu-me novos horizontes, e que foi acompanhado da supervisão da minha prática, uma orientação competente, sábia, segura, tranquila, capaz de ouvir e de confiar. Fui privilegiada na minha iniciação em clínica, pelo que sou muito grata. Penso que outros psicoterapeutas novatos também puderam aprender do contato direto com Flávio… mas não encontrei referência a isso no livro; talvez porque ele ache que isso pertence à história de cada um, mais do que à dele. Pronto: denúncia feita!!!….

Os caminhos que percorri acabaram me conduzindo ao interesse pelo envelhecimento e a constituição do IDEAC. Hoje, em resposta a um pedido nosso, do IDEAC, Flavio Gikovate manda generosamente o texto abaixo, descrevendo como vê o envelhecer.

Maria Celia de Abreu, psicoterapeuta, coordenadora do IDEAC

Cada fase tem seu charme seus desconfortos
Por Flavio Gikovate

Para mim envelhecer foi e é uma surpresa. Quando penso nos números – anos de idade, de casado, de formado… – levo um susto. Confesso que jamais imaginei que eles fariam parte da minha vida.
As dores aqui e acolá já não me aborrecem mais. Até pelo contrário, me tranquilizam à medida que são as mesmas todos os dias e “pioram” bem devagar, dando uma dimensão real da lentidão da deterioração. Isso me deixa otimista, pois penso que, se não houver nenhuma intercorrência grave, ainda poderei viver bem mais uns bons anos. Ao mesmo tempo, me dá a clara dimensão da finitude, a oportunidade de se acostumar com essa ideia e encará-la com naturalidade.

As dores lembram que a energia não é mais a mesma e que convém me preservar cada vez mais. Elas neutralizam a sensação e o estado de espírito que me acompanha com frequência, quando estou em atividade e sem olhar para o espelho, de que ainda sou um jovem promissor, cheio de projetos e devaneios.
A velhice é uma fase da vida interessante, mais leve que a da maturidade e que pode ser quase tão divertida quando a adolescência e os anos da mocidade: as responsabilidades diminuem e a liberdade volta a crescer, posto que, como regra, os filhos já se tornaram independentes e os pais já faleceram.
Não sei se a velhice é a melhor idade, mas não acho que deva ser vista como a pior. Cada fase tem seu charme e seus desconfortos. Cabe a cada um fazer o melhor uso daquela que está vivenciando.

(*) Flávio Gikovate acaba de lançar a obra “Gikovate além do divã”, da MG Editores


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aposentadoria

José Fernando Possato está às voltas com os problemas que chegam com a aposentadoria. Ele trabalhava como gerente de produtos financeiros na diretoria de marketing de um banco e já vinha se preparando para esse novo tempo. Entre as coisas boas da nova fase, ele começou uma atividade que está adorando: a cerâmica. Mas a aposentadoria traz algumas dificuldades e, no caso dele, uma delas foi decidir o que fazer com os livros técnicos que sempre usou no meu trabalho. Para lidar melhor com as emoções que essa decisão desperta, resolveu escrever sobre o tema e o IDEAC gostou tanto que resolveu publicar. Acreditamos que vão gostar:

O passado e a coragem

Me aposentei. Definitivamente.

Foi preciso coragem. Muita.

Não sabia que era necessário tanta coragem.

Achei que somente o cansaço e o saco cheio fossem suficientes para eu tomar esta decisão.

Mas não. Foi preciso ela: a coragem.

Eta palavrinha besta… disforme… autocentrada.

Sempre falamos da coragem do outro. Primeiro achamos de uma coragem exuberante os nossos super-heróis da infância e adolescência. Ainda nesta fase vemos a coragem de nossos pais. E os admiramos.

Estamos sempre tomando decisões filtradas pela coragem. E sempre que falamos ou admiramos a coragem de outros ou outras, estamos admirando nossa própria coragem… ou então a falta dela. Precisamos dos super-heróis para acreditar que a coragem também está em nós. Acredito mesmo que a coragem pessoal é uma construção individual. E portanto, intransferível.

Eu sempre tive exemplos de atitudes e decisões corajosas de pessoas muito próximas de mim. E por isto mesmo admiradas para sempre: meus pais, meus avós e meus tios.

Portanto, sempre fui corajoso por todos os exemplos que tive. Isto é… sempre me passou pela cabeça que era um cara corajoso.

Eu estava enganado… só podia. Construir a coragem interna a partir da coragem externa – de outros – nunca poderia ser verdadeiramente, genuinamente coragem.

Se decidir me aposentar necessitou coragem, muito mais coragem está sendo necessária para que eu tome outras decisões relacionadas à minha aposentadoria.

A mais difícil neste momento: meus livros. Companheiros de muitas jornadas. O que faço com eles?

Me desfazer ou doar tudo aquilo que era meu acervo cultural próprio da minha profissão? Deixar ir embora tudo aquilo que eu li, reli, consultei e me informei para que pudesse realizar com qualidade o meu trabalho?

Livros e livros… apostilas novas e aquelas já amareladas pelo tempo mas que até há pouquíssimas horas consultei. O que é bom, atravessa o tempo. O supera. Aprendi isto na prática. A modernidade – no caso da minha área de trabalho – muitas vezes era somente uma releitura do passado. Com nomenclatura repaginada… Só isto.

E eles, os livros e apostilas, vão se impregnando no cérebro, nas memórias, na alma mesmo. E me apeguei a eles como se fossem pessoas. Como alguém que sempre me deu bons conselhos. Como um terapeuta que sempre me ajudou a tomar as melhores decisões. Como uma bússola a me indicar o melhor rumo a tomar. Sem erros…

Aprendi a amar incondicionalmente estes “entes” queridos.

E como me afastar deles… como deixá-los sair sem uma despedida significativa? Como suportar ver aquelas estantes, que antes ocupavam, vazias? Como vou reagir a este vazio? Como será sentir este vazio antes ocupado por estes seres tão pragmáticos, garbosos, orgulhosos de si mesmos?

Medo. Muito medo. E onde foi parar minha coragem para deixá-los sair?

Mas ai, eles mesmos – os livros – vêm me ajudar a tomar a melhor decisão: doe. Mas doe significativamente. E o que é doar significativamente? É doar para aqueles que ainda irão necessitar de seus conselhos, de sua luz.

E então marquei a primeira saída. Foram todos aqueles livros sobre coaching…

Escolhi um amigo que começa a fazer carreira na área de treinamento dentro de uma Consultoria. Mas, claro, sua carreira irá se dirigir ao coaching… Portanto, estes livros terão significado para ele. Agora e sempre.

Isto realmente me deu um alívio. E fiquei menos triste vendo-os saírem para ocupar outros espaços, outras cabeças…

Agora vou doar os livros de psicologia, sociologia, neurociências, economia, administração e etc., etc., etc… Mas para quem?

Uma biblioteca? Um consultor? m autodidata? Não importa, a dor será a mesma… a saudade será imensa.

Difícil este adeus. E difícil porque eles representam meu passado profissional. E um passado do qual me orgulho. Se fiz algum sucesso na profissão abraçada, muito devo a eles.

Mas eles também me ensinaram que não se deve ficar parado. Portanto, acredito que outros livros irão ocupar o lugar destes que se foram.

Eu só me aposentei. Eu não morri. Estou vivo. E preciso fazer algo positivo. Não só pelos outros. Mas para mim mesmo. A neurociência me ensinou sobre isto: se faço algo bom por alguém, quem mais ganha sou eu mesmo.

Aos que se foram – os livros – só tenho uma palavra: obrigado amigos!

Pelo passado e pelo futuro.

E com lágrimas nos olhos lhes digo: Adeus!!


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mulher livre

Uma história que interessou ao IDEAC (www.ideac.com.br) Alguns jovens professores universitários se conheceram ao integrar um projeto educacional pioneiro de reforma universitária. Isso foi nos anos 70. O projeto acabou desaparecendo, sendo substituído por outros. Os professores seguiram caminhos profissionais variados. Recentemente, já não tão jovens, se reencontraram e se reconheceram: o idealismo que os movia antigamente deixou raízes, os valores educacionais  que defendiam continuam a nortear suas vidas. Agora, vez por outra, o quanto a agitação de São Paulo permite, encontram-se para conversar e dar umas boas risadas enquanto almoçam. Para ativar a comunicação, formaram um grupo no WhatsUp, chamado “Almas Eróticas”. O inusitado do título nos fez ir atrás da história deles e da origem do nome. Está num texto que reproduzimos a seguir. Para muitos esse texto é de Adélia Prado, mas conseguimos chegar à autora que é Fabíola Simões, uma dentista de Campinas, de 40 anos de idade, louca por escrever histórias para tentar entender a vida e explicar o amor, além de refletir sobre a maturidade. E como ela mesma diz, erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Esse texto, que publicamos na íntegra abaixo, também está no seu blog a soma de todos os afetos: http://asomadetodosafetos.blogspot.com.br/2013/09/erotica-e-alma.html

“Adélia Prado certa vez escreveu: “Erótica é a alma”. Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria cosmética.

E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma, de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olhar de súplica?

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Porque não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.

Querendo ou não, iremos todos envelhecer_faz parte da vida. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos_ se você permitir.

O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior_ tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte pra suportar.

Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem dar um agrado à auto estima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado pelo bisturi, viciado em reduzir, esticar, acrescentar, modelar_ até plástica íntima andam fazendo!

Aprenda: Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

Vivemos a era das emergências. De repente tudo tem conserto, tudo se resolve num piscar de olhos, há varinha de condão e tarja preta pra sanar dores do corpo, alma e coração. Como canta Nando Reis, “O mundo está ao contrário e ninguém reparou…” Desaprendemos a valorizar aquilo que é importante, o que é eterno, o que tem vocação de eternidade.

E de tanto lustrar a carapaça, vivemos a “Síndrome da Maça do Amor”: Brilhantes por fora e podres por dentro.

O tempo tornou-se escasso, acreditamos que “perdemos tempo” quando lemos um livro inteiro, quando passamos horas com nossos filhos, quando oramos ou viajamos com a família. E nos iludimos achando que poderemos “segurar o tempo” cuidando da flacidez, esticando a pele, preenchendo espaços.

Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia, medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a alegria pode rejuvenescer mais que o botox.

E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar…

FABÍOLA SIMÕES

http://asomadetodosafetos.blogspot.com.br/2013/09/erotica-e-alma.html


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olfato

A psicóloga Ana Fraiman, integrantes do IDEAC (www.ideac.com.br), fez um belo texto sobre como uma família de amor gera em torno de si uma grande dívida de gratidão para com todos e ensina ensina a manter acesa a esperança de que tudo melhore.

Perfume de Sabedoria: essências que emanam dos bons e verdadeiros amigos.
Ana Fraiman

As viagens que fazemos à cidade de nossos pais, ou simplesmente, onde nascemos nos conduzem mais além de uma vista d’olhos ou uma busca de reconhecimento do lugar de origem. São verdadeiras visitas às terras dos antepassados, preenchidas por valores e lembranças de uma cultura que corre em nosso sangue e deságua em nosso sobrenome. Uma cultura distante da qual, senão participamos de sua construção, coube-nos ao menos um grande legado, depositado em nosso coração. Quer saibamos disso ou não.
Pessoas de uma família não partilham tão somente do DNA impresso no tipo físico, nem tampouco da cultura de origem, da qual muitos sabem tão pouco. Porém de um fenômeno suprassensível, uma combinação complexa que se dá em nível metafísico e que se traduz em saberes, dos quais podemos nem ter o conhecimento e o pertencimento, mas que permanecem indeléveis em nossa mente mais profunda e original.
Uma pessoa em si, jamais é perfeita. Duas pessoas podem se constituir num par perfeito, de características ‘gêmeas’, como que uma espécie de complementaridade existencial, humana e social, podendo ser muito diferentes nos traços (ela tranquila e reflexiva, ele extrovertido e envolvente) e serem, ao mesmo tempo, unidos pela sensibilidade e disponibilidade expressa no mais alto nível. Condecorações, medalhas de honra, títulos, inteligência superior, empreendedorismo, beleza ímpar, fama, alto status e grandes ganhos, tudo isso empalidece frente à realidade que desliza espontânea e envolvente, simples e sem adornos entre o par perfeito.
Duas, três, muitas pessoas da mesma família e seus agregados, mais os amigos que deles se aproximam e permanecem, de modo incansável pegam pela mão, apontam, educam e apoiam uns aos outros, cuidando do crescimento de todos. Uma família de amor gera em torno de si uma grande dívida de gratidão para com todos eles, por que entram em nossas vidas pelo nosso olfato, nossos olhos, ouvidos e pele, e nos ensinam a ser mais gente e a manter acesa a esperança de que tudo melhore.
E quando se mostram disponíveis a nos receber em suas casas e mesas, todos se sentem amigavelmente acolhidos e escolhidos, por que uma família de amor é aberta para os amigos e os desconhecidos que dela se aproximam e, fácil dela se encantam. Casais e famílias que se fecham para com os de fora são infelizes. Ásperos e esquisitos em seu mundo encastelado. Casais e famílias de amor são uma ‘força da natureza’ em sua capacidade de agregar, de se comunicar, criando em torno de si, mais vontade de ficar e se deixar levar.
Suas conversas são mais leves e engraçadas. Seus abraços apertados não sufocam nem prendem. Seus sorrisos largos confortam e encorajam. Seus ‘acenos de adeus’ não significam nada além de gestos amistosos que dizem: vão tranquilos, aproveitem e estaremos aqui, para nos vermos em breve. Mas e seus perfumes?
Saborear uma comida perfumada pelo odor do amor, torna os momentos especiais, tira da vida o seu gosto de ‘comum’. Os perfumes que sentimos entre as famílias de amor rescendem a um sentimento de prévio conhecimento, antigo e estável, como as amizades que transcendem os tempos. É um misto de ‘parece que já o conheço desde sempre’ com ‘você é igualzinha a minha tia avó, pessoa maravilhosa de quem sinto muitas saudades’.
Familiares e amigos animam o espírito. Qualquer local passa a ser o nosso local bom de estar. Senão de nascimento, de renascimento. Algo que podemos ter buscado lá longe, em terras e culturas que hoje, conscientemente já não nos dizem mais nada, porém quando encontradas, perto ou longe, leva-nos à sensação-certeza de ser neste lugar, com estas pessoas, que nos sentimos mais em casa, mesmo sem estar. E ninguém, mas ninguém mesmo, ameaça nos excluir ou haverá de nos desterrar.
Quando eles, famílias e amigos de amor nos cumprimentam, nos sentimos beijados pelo sol ameno, que não está no céu e, sim, em cada uma das pessoas. Tal é o perfume, então, de sabedoria que deles todos emana. Perfume de infância feliz, felicidade de importantes descobertas. Legado dos antepassados que adentraram florestas impenetráveis, jornadas perigosas e situações hostis e as transformaram em segurança e vontade férrea de superar todos os obstáculos em nome de todos, fazendo florescer prosperidade nas mentes e fecundidade nos solos e nos negócios. Por que ouviram e acolheram a mensagem de crescer e multiplicar. E isso não se constrói sozinho, nem sem esforço.
Perfume de sabedoria dos nossos ancestrais suados, antigos desconhecidos que fizeram façanhas impossíveis, pessoas fortes e corajosas de quem todos descendem. Perfume de todas as lutas árduas pela sobrevivência, dos mares singrados. A defesa dos mais nobres ideais, do sangue que os banhou pela liberdade e pela felicidade de todos. Hoje deles podemos desfrutar ao longo de uma vida digna e valente, sem saber quem foram, suas histórias que desconhecemos e não honramos, mas que estão vivas em nós, rogando que continuemos com a missão de sermos muitas e diferentes mentes num único coração.
Os amigos têm o sabor e o cheiro dos nossos mais íntimos familiares de amor, a quem reconhecemos por instinto, tal e qual ninhada recém-parida que se arrasta às cegas para se aninhar num ventre de leite farto e nutritivo de mãe quase exangue e, ainda assim, sábia e carinhosa. É pelo faro que todos os seres humanos e os animais se orientam, sabedoria que trazemos por dom de nascimento. E que só nos resta aplicar para viver. Aliviados, todos suspiram seu grito de pertença mais puro e sincero. E é daí que brota a nossa simples presença.
Nosso olfato, dotado das memórias ancestrais de vida bem vivida, ainda que difícil e ardilosa, é o sentido que em primeira instância nos leva a escrever poemas de afeto sincero e puro, mesmo estando cansados e cobertos por sujidades em meio às quais nascemos e vivemos, mas a que não pertencemos. É pelo olfato que conhecemos o amor. É do amor que nos nutrimos de sabedoria. Que importa se de sangue ou por afinidade.
Não somos todos irmãos quando estendemos ao outro, ao diferente, o nosso abraço de amizade? E quem vive bem, sem agradecer a todos aqueles que um dia aqui estiveram e depositaram a sabedoria de vida que herdamos? Sem ser amigo e, como amigo dos familiares, dos íntimos e dos desconhecidos, gentil e generosamente, quem vive bem sem deixar o seu legado, a sua doação, o seu perfume de amor para as próximas gerações?


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ideac_pantufas

“Não adianta só ficar falando sobre a velhice. A velhice não é para ser ignorada, é para ser pensada e refletida. Assim, cada pessoa vai encontrando seus caminhos, suas soluções, seu apaziguamento. Feito isso, vamos parar de falar e viver em função da morte e colocar a vida e novas ideias adaptadas às novas paisagens dessa fase. Na maturidade é preciso se adaptar e ter flexibilidade para tudo. Não fique duro nem no corpo, nem na alma ou no coração. É possível ter uma velhice feliz quando nos apoiamos em alguns pilares. Tenha uma ocupação, tenha obrigações remuneradas ou não, crie uma rede de relacionamentos sociais da família e de amigos. Muitas pessoas se afastam da gente na velhice, mas podemos ir atrás de outras pessoas, de outros grupos. Pergunte para você mesmo o que pode oferecer para os outros para ser mais agradável, e ofereça. Não se torne uma pessoa pesada e chata que todos querem bem longe. Vamos aprendendo com a passagem do tempo e não por acaso a sabedoria é uma das características da terceira idade, quando estamos mais tranquilos e seletivos para o que realmente importa. Cada fase tem a sua missão e a nossa, na maturidade, é devolver para a sociedade aquilo que recebemos. Ensine, dê conselhos, dê consultoria, dê bolsas de estudos, seja voluntário, ajude. É uma fase para resgatar sonhos, se reintegrar com o universo e procurar novas respostas, se é que elas existem. Muita coragem e animação para 2015 e não se esqueça, deixe tudo que amole para trás. Feliz Ano Novo.”

Maria Celia de Abreu, psicóloga e coordenadora do IDEAC e do grupo Pantufas de Ouro, que estuda questões sobre a maturidade.