IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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Por Maria Celia de Abreu

 Para quem se informa sobre o fenômeno do crescente envelhecimento populacional, já é notório que lidar com a explosão da longevidade, a diminuição dos nascimentos e a consequente inversão da pirâmide demográfica no Brasil é o grande desafio do século XXI.

A via mais lembrada para sanar a problemática que surge com essa mudança demográfica é a via política e legal.

Leis até agora vigentes nem sempre atendem às novas necessidades desta sociedade que envelheceu. Precisam ser revistas, adaptadas a nova realidade, ou então criadas. Embora haja leis que favorecem o idoso e que já foram aprovadas, nem sempre elas são conhecidas e, portanto, é como se não existissem, e uma frente de conquistas é lutar para que elas se façam valer.

Ainda há um terreno enorme a ser explorado, por políticos e por legisladores, em prol da causa do idoso e de uma sociedade justa. Terreno vasto e complicado, pois esbarra em questões práticas, como o equilíbrio financeiro do país, mas imbricado com complicadas decisões baseadas  na bioética.

Porém, há outro terreno, cuja exploração, a meu ver, é imprescindível para que se estabeleçam mudanças, mas que é muito pouco mencionado. Antes de me envolver com o estudo da Psicologia do Envelhecimento, minha primeira área de interesse acadêmico foi a Psicologia da Educação. Talvez por conta dessa minha formação –talvez devesse dizer paixão – acredito que o novo velho do século XXI precisa se educar para viver mais e com qualidade de vida, e para aproveitar as enormes modificações introduzidas pelo progresso da tecnologia.

Acredito também que o profissional que interage com este novo velho precisa se educar para desempenhar adequadamente suas funções, uma necessidade presente sempre, mas muito evidente para os profissionais da área da saúde.  Por um lado, deve conhecer e compreender o interlocutor, com suas características e diversidades, para poder atende-lo, e até aí não há nada de novo. Por outro lado, o profissional precisa se conhecer e ser capaz de identificar em si mesmo preconceitos e rejeições que eventualmente tenha em relação ao velho, e que serão obstáculo à boa qualidade de seu trabalho.

Considerei da maior importância expositores que levantaram essa questão.  Apareceu, por exemplo, em debates sobre como lidar com a sexualidade na velhice, sobre declaração antecipada de vontade(ou seja, para abordar esse assunto com um cliente idoso, o profissional precisa estar despido de preconceitos e de medos), e foi  tema de um painel chamado Educação para o Envelhecimento.

Parabéns aos expositores que destacaram esses pontos, e parabéns aos organizadores do XXI Congresso da SBGG, que deram abertura para eles!

(*) Maria Celia de Abreu é psicóloga, coordenadora do Ideac e autora do livro “Velhice, uma nova paisagem”

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As transformações que a longevidade trouxe para a sexualidade foi um dos temas de destaques do primeiro dia do XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, realizado no Rio de Janeiro. Segundo dados apresentados, 76% das pessoas entre 65 e 80 anos acham que sexo é importante na maturidade, mas esse novo velho está envelhecendo com uma sexualidade preservada e convivendo com muitas mudanças. Muitos estão envolvidos com redes sociais procurando parceiros, 62% conversam com profissionais de saúde sobre o tema, 35% falam com seus parceiros sobre sexo e 17% evitam o assunto. Esses foram alguns dados apresentados na mesa sobre Sexualidade – Afetos e envelhecimento: o amor e o sexo no curso da vida, com a psicóloga Valmari Cristina Aranha, e Sexualidade e doenças crônicas, com a geriatra Aline Saraiva da Silva Correia.

As especialistas explicaram inicialmente que como a velhice é heterogênea, a sexualidade também é. O novo velho é um jovem que envelheceu e mantém suas características, que dependem também de questões culturais e religiosas, da identidade e da história de vida.

O papel da família é fundamental nesse processo para aceitar que os idosos mantenham uma vida sexual ativa, principalmente as mulheres, que mostram mais dificuldades para falar sobre o tema e assumir seus desejos. Muitos velhos com a passagem do tempo descobrem novas possibilidades, resgatam desejos e conseguem viver com mais liberdade e sem os antigos estereótipos. Mas cada pessoa é diferente da outra. “Não é obrigatório ter sexo na maturidade, é bom ter alguém se fizer sentido para a pessoa”, diz Valmari.

A especialista aconselha que os idosos percebam as mudanças ocorridas no seu corpo e no seu desejo para que possam fazer adaptações para deixar a vida sexual na velhice mais satisfatória e com novas opções. Ela sugere, por exemplo, manter a atmosfera romântica entre o casal, trocar muitos carinhos, olhares, beijos, conversar bastante e aproveitar o autoconhecimento que vem com a idade, que permite fazer escolhas mais coerentes. O prazer não acontece somente com a penetração, há outras formas. “Falar sobre os desejos é uma forma de naturalizar a sexualidade”, afirma.

Um fator que costuma prejudicar muito a vida sexual é a depressão, que também ronda a vida dos idosos. Estudos indicam que de 40 a 50% das pessoas com depressão na maturidade relatam perda da libido ou algum outro tipo de disfunção.

As especialistas aconselham que os médicos façam perguntas sobre a vida sexual com muita naturalidade para os pacientes idosos, sempre em linguagem acessível, comentem sobre doenças como DSTs e Aids e a importância da prevenção e nunca infantilizem os pacientes para não parecer que o tema é superficial. “Se o médico não se sentir confortável em abordar diretamente o paciente sobre o assunto, certamente esse paciente também não se sentirá para esclarecer dúvidas com ele”, comenta Aline.


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Para continuar a série iniciada ontem sobre música e envelhecimento, entrevistamos músicos na maturidade apaixonados pelo que fazem. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Pianista, com muito prazer

Joana Guidolin tem 73 anos e é pianista. Tocou na juventude, mas depois foi deixando de lado para seguir outros caminhos. Depois dos 65, quando se aposentou, resolveu ter aulas novamente e faz parte de um grupo de pianistas amadores que se encontra com frequência para aprender e trocar experiências, sempre com um professor. Aos 70 anos ela resolveu se dar um presente e lançou um CD, que ofereceu aos parentes e amigos no dia da festa.

Para ela, é um grande prazer tocar um instrumento: “Este prazer no piano, como é o meu caso, não é somente no momento final, quando a peça já está totalmente pronta para outros ouvidos, mas é um prazer que se sente durante o próprio estudo, pois praticar piano é estar sempre enfrentando desafios, é saber que, se persistir, irei conseguir. E aí é muito gratificante. O prêmio é sentir-se capaz, mais forte do que antes”.

Joana vê a música como um jogo com ela mesma: “Se, bem-sucedida, me sentirei mais potente. É um trabalho de paciência e de aquisição permanente de força. E na vida, não se tem de descobrir como ser forte a cada momento?”

Consultando seus amigos do grupo sobre os benefícios da música para a memória, ela diz que todos concordam que sim, pois o exercício de repetir, repetir e memorizar muitas músicas ajuda a estimular a memória: “Acreditamos que a memória é muito incentivada durante todo o tempo de estudo e a cada música aprendida e memorizada. Não sei se existe algo científico sobre isso, ou seja, como eu seria se não praticasse piano. Teria menos memória do que tenho hoje? Ou a memória musical fica em outro espaço do cérebro?”.

Joana também faz parte do Coral Canto da Casa, com 15 coralistas, com regência do maestro, Julio Battesti. Do grupo, seis coralistas têm mais de 65 anos e eles já fizeram um musical com um grupo de deficientes visuais no Tuca, cantam em festas, entidades e hospitais.

Alegria do Baretto

Aos 80 anos, o pianista Mário Edson Farah (foto do topo) toca quintas, sextas e sábados no Bar Baretto, sempre da meia noite até duas da manhã, e no Restaurante Fazano, às segundas e terças, das 21 às 22h30. Filho do compositor Nacif Farah, de Tatuí, Mário Edson nasceu em São Paulo, mas passou a infância e adolescência na cidade de seu pai. Durante anos dividiu a vida profissional entre o magistério e a música, mesmo quando veio para São Paulo tentar a sorte. Dava aulas, mas à noite tocava em casas noturnas, com um repertório voltado principalmente para a MPB. Mário Edson já conquistou muitos prêmios, entre ele o Governador do Estado, e é apaixonado pelo que faz. Quando a pergunta é se a música ajuda a memória, ele sorri e diz: “Tem que ensaiar todo dia, não dá tempo para esquecer. O importante é não parar”, completa.

Dupla de violeiros

Rose Blue e Décio Zylber são professores universitários (ela aposentada, ele ainda buscando coragem para parar de vez) e depois dos 50 anos resolveram aprender viola caipira e formaram a dupla Vereda Violeira. Com dois CDs gravados e inúmeras apresentações, inclusive com outros músicos, em eventos, bares, espaços de hotéis e em casas de idosos, eles são encantados pela viola caipira e muito dedicados aos estudos. Conhecem toda a história do instrumento, fazem aula de canto, ensaiam bastante, têm um repertório lindo e mantêm a expressão tranquila de quem se alimenta da música para afinar a alma.

Quando resolveram aprender, foram justamente ter aulas com um jovem professor de 17 anos. Rose diz que até pensou que não daria certo, mas, pelo contrário, ele com toda paciência e dedicação foi entregando os segredos e a música tomou conta da vida do casal. Décio comenta que eles cantam, tocam e contam causos, e que nas apresentações para os idosos sentem como a música é importante, resgata memórias e traz muita alegria. Muitos, no final das apresentações, chegam perto para contar que também tocaram um dia, e são incentivados pela dupla para voltar a tocar um instrumento. “Foi um desafio que resolvemos encarar e que deu certo. Com a música de viola, a vida abriu uma perspectiva de enraizamento e com ela é possível resgatar o tempo humano que muitas vezes é esquecido”, garantem. Dos filhos o apoio é total, mas quem vibra mesmo são os netos com a música dos vovôs. E assim, as modinhas de viola vão chegando a novos corações…


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“Quanto tudo acaba? – Quando o cérebro para de funcionar, diz o médico. Quanto o coração para de pulsar, diz o teólogo. Quando o pé para de dançar dizem as musas”.
Do livro Música, Inspiração e Criatividade, de Jon-Roar Bjorkwold (Summus Editorial)

Certamente, os músicos também diriam que a morte acaba quando o ser humano perde a capacidade de se maravilhar e de criar novas sinfonias. A música está presente em todas as fases da vida e, mais ainda, no envelhecimento. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Ele foi convidado pelo geriatra para falar durante o congresso e mostrar sua experiência com dois grandes nomes do mundo da música, com uma história parecida: a pianista Magda Tagliaferro (falecida em 1986, aos 93 anos de idade) e o cravista Roberto de Regina, com 91 anos e que ainda toca.

“Vamos nos dando conta de que no meio da música clássica há muitos casos de longevidade e, coincidentemente, esses meus professores tocaram até os 90 anos de idade em concertos em salas importantes como Londres Nova Iorque. E não é só na música clássica, há muitos músicos longevos inclusive no rock, como Mick Jagger”, comenta Marcelo.

Outra observação do músico, é a de que geralmente são pianistas, regentes ou cravistas que tocam até mais tarde: “No caso do canto, por exemplo, é mais difícil, o instrumento está dentro das pessoas e o envelhecimento fica mais evidente. Com o instrumento de corda e sopro a relação é diferente, ao contrário do teclado, que por uma questão fisiológica facilita a continuidade com a passagem dos anos”, ele diz.

Para Fagerlande, a música acompanha o ser humano em várias fases, é muito presente no processo de envelhecimento e nas memórias: “Eu não conheço a vida sem música, e acredito que é assim para todos que optaram pela música não por dinheiro ou fama, mas para percorrer um sonho, o que faz toda a diferença. Claro que é uma atividade que tem um desgaste físico e exige muito do corpo e da mente, traz cobranças. Há uma certa romantização de que a atividade física é inspiração, mas o público só vê o resultado final e não todo o esforço feito entre quatro paredes. Sempre foi difícil viver de arte em todas as épocas”.

Sobre Tagliaferro, ele conta que ela morreu com uma memória prodigiosa, tocando tudo sem partituras: “O curioso é que a memória está sempre presente, seja tocando em partituras ou não. Tem uma questão cognitiva, neurológica e cerebral e o músico trabalha para conquistar esse equilíbrio. A música é importante para a criança, para o jovem, para o adulto e para o velho, quando ela é feita com a alma está sempre presente”, conclui.

Sobre Marcelo Fagerlande

Nascido no Rio de Janeiro, é graduado em cravo com grau máximo pela Escola Superior de Música de Stuttgart (em 1986, na classe de Kenneth Gilbert) e Doutor em Musicologia pela Uni-Rio (2002). É professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1995.

(*) A série continua amanhã em nossas redes sociais, trazendo histórias de músicos com mais idade, encantados pelo trabalho


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Por Ivani Cardoso

“Envelhecer não é sofrer”, diz o geriatra Daniel Azevedo, um dos organizadores do XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, programado para o período de 6 a 8 de junho, no Windsor Convention & Expo Center, no Rio de Janeiro, que terá a participação de 180 palestrantes nacionais e internacionais.Daniel Azevedo é secretário geral da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e falou com exclusividade para o Ideac sobre as novidades do evento e as mudanças que estão acontecendo no campo da Geriatria. Um grupo de profissionais integrantes do Ideac também acompanharão o evento e teremos publicações diárias das novidades em nossas redes sociais.

Segue a entrevista:

Quais as principais mudanças na Gerontologia nos últimos tempos?

A SBGG tem mais de 50 anos e nosso congresso acontece a cada dois anos. Uma vez que a sociedade está envelhecendo, existe uma percepção maior do fenômeno e por isso é importante atender cada vez melhor esses idosos. A Gerontologia é o estudo desse fenômeno e temos profissionais de várias áreas, como advogados e arquitetos, por exemplo, com especialização em gerontologia. Tudo é importante para que a sociedade fique mais amigável para os idosos.

Como avalia esse crescimento dos idosos no país?

Os números são alarmantes, a expectativa em 2025 é a de que teremos no Brasil 32 milhões de pessoas, um contingente muitos expressivo. Entre as faixas etárias que mais crescem e mais rápido está a de 80 anos e mais. A população está se convertendo rapidamente em uma população de cabelos brancos, com uma série de repercussões para a saúde e previdência social, principalmente, uma vez que uma população que tem menos adultos deve sustentar uma população idosa.

Quais são os destaques dessa edição?

Conseguimos uma programação de ponta com excelentes especialistas do Brasil e do Exterior. Temos como destaques internacionais o professor Rui Nunes, especialista em Bioética e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), e o dr. Frank D. Ferris,  Diretor Executivo de Medicina Paliativa, Pesquisa e Educação da OhioHealth, em Columbus, Ohio, que fará a Plenária de Abertura sobre Envelhecimento no século XXI: o que você quer para si mesmo? Ressalto também na programação um workshop sobre planejamento avançado de cuidados, na quinta-feira, dia 7, com a enfermeira irlandesa Kate Irving, que trabalha na Dublin City University, Irlanda, onde é professora em Enfermagem em Saúde Mental. Ela é uma autoridade no cuidado de pessoas com demências e vai mostrar que esses pacientes conservam características da personalidade anterior e que é possível reduzir a prescrição de medicamentos. E teremos, ainda, o Simpósio da Associação Brasileira de Fisioterapia em Gerontologia, com instruções pioneiras.

Como vai funcionar a Extensão em Geriatria?

São atividades de informação para os médicos de outras especialidades da Geriatria que estão recebendo cada vez mais os pacientes de idade em seus consultórios, e querem se atualizar sobre tratamento dessas pessoas. São três dias de imersão com aulas de referências sobre os principais temas da especialidade. Ao final do dia, os participantes têm acesso às plenárias de encerramento.

Quais as principais condutas para o idoso ter uma vida mais plena?

Envelhecer não é sofrer, cada pessoa envelhece de acorçoo com a sua trajetória. Não vale a pena demonizar a velhice como um momento de muito sofrimento, mas por outro lado não se deve dourar a pílula. Entendo que seja fundamental a criação de uma rede para o idoso, seja de pessoas familiares ou amigos que podem prestar assistência ou uma rede de assistência à saúde. Quando a pessoa tem essa rede, o processo de envelhecimento tende a ocorrer de forma menos traumática.

Como avalia a situação do Brasil em termos de políticas públicas para os idosos?

Estamos caminhando. Acredito que o Brasil está vivendo um processo de transição demográfica da idade da sua população muito rápido e isso exerce uma pressão muito grande sobre os poderes públicos. Temos uma velocidade de resposta aquém do que gostaríamos, mas ela existe. Temos grandes especialistas envolvidos com isso, como Maria Angélica Sanchez Laura Machado, do Rio de Janeiro, e Karla Cristina Giacomin, de Minas Gerais. Há muitos profissionais levantando a bandeira do envelhecimento e representando o Brasil internacionalmente em debates sobre essas questões.

Como encara a cobertura da mídia para o tema envelhecer?

Há muita polarização ou algo estigmatizado quando douram a pílula em comerciais com idosos rodopiando felizes com sua vida sexual. O envelhecimento é um fenômeno muito complicado que não deveria ser banalizado. Mas é importante que o tema venha ocupando espaços na mídia.

Quais são os maiores desafios das próximas décadas na área de Gerontologia?

O grande desafio talvez seja atender a mudança da família contemporânea, que não é mais uma família geralmente tão receptiva e disponível para a pessoal idosa.


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Por Ivani Cardoso

Se o doutor José Ricardo Jauregui, Presidente da Sociedade Argentina de Gerontologia e Geriatria e Presidente eleito da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria (2021- 2025), pudesse escolher em que mundo gostaria de envelhecer, a resposta vem rápida: “Em um mundo onde se respeitam as pessoas sem diferenças de sexo ou idade e que os lugares onde eles moram estejam preparados para as dificuldades que enfrentam”.

Com vários títulos e muitas vivências na especialidade, ele sabe exatamente os desafios para chegar a esse mundo ideal, e falou com exclusividade para as redes sociais do Ideac. Ele será um dos participantes internacionais do XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, programado para o período de 6 a 8 de junho, no Windsor Convention & Expo Center, no Rio de Janeiro, que será acompanhado por um grupo de pessoas que fazem parte do Ideac.

Entre seus títulos, estão os de Doutor em Medicina pela Universidade de Salamanca, Espanha; Especialista Universitário UBA em Geriatria; Diretor do Centro de Satélites Argentino do Instituto de Envelhecimento, Malta, Nações Unidas; e Membro do Conselho da Academia Latino-Americana de Medicina para Idosos.

Na Argentina

Atualmente, a população com mais de 60 anos na Argentina é de 10.3%, cerca de 4.300.000 milhões de pessoas. “Temos cidades com mais de 17% nessa faixa. A tendência é o crescimento. Para 2050 a expectativa é de 20% de idosos na população geral”, informa o dr. Jauregui.

A Argentina foi pioneira em alguns procedimentos legais ligados à velhice em termos de políticas públicashá muita consciência governamental sobre os direitos dos idosos, mas os benefícios ainda não são vistos e as leis tampouco respeitadas, segundo o especialista.

Outro ponto levantado pelo médico é o papel da tecnologia na vida dos idosos: “Ela deve facilitar a realização de atividades da vida diária, colaborar no acesso a tratamentos de saúde, simplificar a comunicação e melhorar o meio ambiente onde os idosos vivem, o estudo e os contatos sociais, além de criar projetos de ajuda para combater a solidão, entre outros”, comenta.

Desafios

O geriatra acredita que a aposentadoria da vida ativa deve ser opcional, mas defende um limite de idade para que seja definitiva. Na questão idade, outro grande desafio no país é lidar com os altos percentuais de incapacidade e doenças crônicas na população de idosos, principalmente naqueles com mais de 80 anos. Em sua opinião, a solução passa por um plano nacional de saúde e cobertura social voltada para doenças crônicas e incapacidades: “É preciso contar com cuidadores treinados para ajudar os idosos e respeitar as decisões pessoais daqueles que podem tomá-las. Também é necessário incentivar a Medicina preventiva desde uma idade mais jovem, com base em nutrição, exercícios, vacinas e atividades que favoreçam o bem-estar, além de evitar o fumo, o excesso de álcool ou outras drogas ao longo da vida”.

Como em outros países, à medida em que a população envelhece, o número de pessoas com enfermidades como o Alzheimer na Argentina aumenta proporcionalmente. O foco deve estar em trabalhar desde anos anteriores para evitar os fatores de risco para a enfermidade. “Isso ajuda a atrasar o seu começo. E uma vez instalada, trabalhar com os grupos de ajuda a familiares com o suporte dos serviços sociais e da saúde para sejam cuidados. Sem dúvida, algumas dessas medidas devem ser implantadas pelo Estado”, afirma dr. Jauregui.

Pelo mundo

O conhecimento dos profissionais de saúde e o suporte gerontológico são preocupações crescentes da Geriatria em países da América Latina. Hoje são realizadas pesquisas em muitos países e muitos têm leis de apoio aos direitos humanos para os idosos e planos nacionais ou regionais que oferecem boa cobertura de saúde e suporte social. “De qualquer forma, ainda estamos com regiões muito atrasadas no desenvolvimento de uma sociedade comprometida com o cuidado de seus idosos”, lamenta o especialista.

Como Presidente eleito da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria (2021/2025), atualmente presidida pelo Prof. John Rowe, dos Estados Unidos, José Ricardo Jauregui diz que a entidade está trabalhando em vários programas das Nações Unidas para defender os direitos dos idosos. De todo o mundo, além de assessorar a OMS através de seus próprios programas, é a instituição de formação de gerontologistas em diferentes países do mundo nos cinco continentes através de sua academia de treinamento.

Em termos globais, os países da Europa Central, como Holanda, Países Escandinavos, Reino Unido, Alemanha ou Espanha, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Japão e Coreia do Sul são os que mais desenvolvem programas, serviços ou infraestruturas de apoio a pessoas idosas.


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mariacelia

A partir do dia 4 de abril a psicóloga Maria Celia de Abreu (foto) inicia o curso “Os desafios do envelhecimento hoje”, pelo Ideac, em oito aulas quinzenas, sempre às segundas-feiras das 18 às 19h30. Nesta entrevista, Maria Celia fala sobre o envelhecer e dá uma ideia de como será interessante participar desses encontros.

Envelhecer dá trabalho?
Trabalho, no meu modo de ver, não significa nada de ruim ou pesado. Trabalho para mim é um prazer e uma bênção; poder trabalhar e trabalhar. Envelhecer dá trabalho, ser gente dá trabalho… Deixar de ser bebê e ser tornar criança que vai para a escola dá trabalho: deixar de ser criança para virar adolescente dá trabalho demais. E envelhecer e se tornar velho também dá trabalho, mas isso não é uma coisa negativa.

Qual vai ser o trabalho nesse curso?
O trabalho que vai ser pedido aos participantes vai ser tirar alguns momentos da sua vida para conversar, para trocar ideias sobre  nosso tema envelhecimento e seus subitens, trocar experiências, conhecer alguns textos básicos e fundamentais sobre o assunto,  entrar em contato com a opinião de autores interessantes e refletir sobre a ligação que existe entre as experiências e reflexões relatadas pelos outros e a própria vida. O objetivo é conseguir viver o melhor possível a própria vida. Aproveitar o máximo o que cada pessoa tem como potencial.

Qual é o maior medo que a velhice traz?
A velhice costuma vir carregada de medos, muito porque na nossa sociedade ela é muito desvalorizada. Mas existe um medo que faz parte também da gente ser gente, ser humano, que é a finitude. Vamos ter que acabar, cada um de nós vai ter que acabar. Isso dá muito medo, às vezes esse medo é conscientizado, às vezes é empurrado para debaixo do tapete para não ser enxergado, mas ele está sempre presente, não tem como fugir disso. E vamos falar sobre ele no curso.

É difícil assumir “eu sou uma pessoa velha”?
É muito difícil dentro da nossa sociedade. Eu muitas vezes disse essa frase para várias pessoas e a reação é muito cordial com tapinhas nas costas e palavras de consolo dizendo não, você não é velha, não parece velha. Só que eu sou velha. As pessoas tentam amenizar e algumas até dizem você não é velha, sua alma é jovem. Para mim isso é ofensivo, é tão ofensivo como dizer que você é negro mas sua alma é branca. Eu sou velha e me deu muito trabalho para chegar até aqui. Eu tenho muito orgulho de ser velha.

O trabalho em grupo facilita tratar esses temas?
É fundamental a gente não se sentir sozinha, descobrir que tem outras pessoas com histórias de vida em alguns pontos semelhantes a da gente, com medos semelhantes aos nossos, com preconceitos semelhantes e enfrentando os mesmos preconceitos dos outros. É muito bom um compartilhar com os outros suas soluções, um contar para o outro como resolveu aquilo que eu não consegui resolver. Isso dá muito apoio e confiança, o que permite que a gente encontre forças para batalhar e para seguir em frente na vida.

Curso Desafios do Envelhecimento
Início: 4 de abril, com oito encontros quinzenais, de 1h30
Dias e horário: segundas-feiras, das 18h00 às  19h30.
Grupos de no mínimo 5 e no máximo 12 pessoas
Custo: R$ 166,00 mensais (10% para quem já fez curso do Ideac)
Inscrições:
Email: ideac@uol.com.br
Fone: (11) 3885-0091 (secr. Eletrônica)