IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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A palavra é cada vez mais usada e geralmente utilizada como sinônimo de resistência quando o seu significado se refere a flexibilidade e capacidade para enfrentar mudanças, mas seu sentido vai mais além. A resiliência para a psicologia científica é comportamento e não um traço da personalidade, pode ser treinada e aprendida, como explica o psicólogo, professor, escritor e consultor João Marcos Varella, especialista no tema.  Ela é aplicada em Psicoterapia, desenvolvimento de lideranças e de grupos de trabalho, desenvolvimento comportamental em escolas, em coaching e no desenvolvimento de famílias.

João Marcos participou de um encontro com o Grupo de Reflexões do Ideac para falar sobre o tema. Segundo ele, tudo começou quando duas psicólogas da área de psicologia do desenvolvimento foram para o Havaí e passaram a acompanhar 700 crianças durante mais de 30 anos.

“As crianças viviam num grau de adversidade, a característica comum entre elas, filhos de pescadores ou cortadores de cana, com problemas de alimentação, ausência de acompanhamento, saúde, educação. Depois de 30 anos de observação sistemática, um grupo tinha superado as dificuldades, se adaptado à sociedade e à vida adulta, constituído família e era produtivo. Um grupo teve dificuldades, mas acabou se adaptando, e um terceiro grupo que teve muitas dificuldades se envolveu com drogas, doenças e vários outros problemas”.

Depois disso, a pesquisa foi publicada em livro que despertou o interesse dos cientistas para entender o resultado: o que determinava a qualidade do desenvolvimento do grupo bem adaptado? A primeira tentativa foi identificar se era um traço de personalidade, mas as pesquisas não confirmavam. As crianças inicialmente foram chamadas de invulneráveis e depois de resilientes, associadas a um comportamento de enfrentar desafios.

Durante mais de 20 anos foram muitos outros trabalhos, mas por volta do ano 2000 um autor desenvolveu um trabalho mostrando que resiliência era comportamento e não traço de personalidade. Assim, poderia ser mapeada, aprendida, e treinada. Os estudos se focaram na resiliência como comportamento. Na Universidade da Pensilvânia se desenvolveram os primeiros estudos sobre Resiliência, quando dois pesquisadores orientados por Martin Seligman criaram a primeira ferramenta para mapear a resiliência.

João Marcos explica que essa ferramenta já evoluiu, foi aperfeiçoada e tem sido aplicada em empresas, escolas. “Eles treinaram resiliência em mais de um milhão de soldados americanos e constataram a diminuição de suicídios, de síndrome pós-traumática, de divórcios e depressão comparados com outros que não passaram por esse treinamento”.

Em 2005, João Marcos conheceu o professor George Barbosa, que em 2006 defendeu a tese de doutorado sobre o tema e desde essa época vem trabalhando com ele com sobre aplicação de resiliência. George desenvolveu uma metodologia de mapeamento por processos estatísticos com indicadores com base no que foi desenvolvido na Universidade da Pensilvânia e identificou oito comportamentos. Essa ferramenta já tem milhares de aplicações.

“Você age pelo conjunto dos 8 comportamentos. O interessante é que conhecendo e identificando em você seus comportamentos resilientes, pode ser mais fácil aprender e treinar para enfrentar os desafios”, comenta.

Conheça os comportamentos identificados

O mapeamento resulta numa localização pessoal com referência na curva de Gauss com o comportamento de equilíbrio resiliente na média e aponta desvios com relação a essa média. Numa direção o desvio aumenta a intolerância e a raiva; na outra, a passividade e a tristeza. Quanto maior o desvio, maior o risco de conflito e estresse.

  1. Análise de contexto ou pensamento crítico – Significa uma boa visão da realidade. Quando o desvio é para o lado da intolerância, a pessoa acredita que a realidade é aquela que ela imagina, tem uma visão inadequada do mundo, tem dificuldade em aceitar as evidências da realidade, entra em conflito e aumenta o estresse. Do outro lado ocorre a passividade, aceita mesmo em conflito ou sofrimento, vai se acomodando à diferença entre o desejo e a realidade. Com o desvio, a pessoa perde a qualidade do seu pensamento crítico e entra em conflito ou pela intolerância, ou pela passividade.
  2. Autoconfiança – É quando a pessoa estabelece metas, desafios, objetivos adequados à sua condição de alcançá-los. Quando tem um desvio da autoconfiança, podem ser estabelecidos metas e desvios fora do alcance de nossas possibilidades. No extremo tem o aventureiro, a pessoa que toma decisões para objetivo que não consegue alcançar. No outro extremo vem a passividade na autoconfiança, pessoa sem iniciativa, sem o comportamento protagonista.
  3. Autocontrole – Se manifesta na administração das emoções diante de conflitos e situações de tensão. São pessoas que têm que negociar, que têm que obter resultados através de outras pessoas. Quando a situação não está de acordo com as suas expectativas, elas sentem raiva ou, por outro lado, se submetem.
  4. Conquistar e manter pessoas – É a capacidade de criar vínculos, principalmente com pessoas desconhecidas. É uma característica do bom vendedor, por exemplo. Um desvio para a intolerância faz com que a pessoa tente insistir na sua forma de fazer, acontecer.
  5. Empatia – É a capacidade de entender o pensamento e o sentimento da outra pessoa. Quando isso falha, a pessoa assume que sabe o que o outro está pensando ou sentindo, e age de uma forma que vai entrar em conflito. Ou se deixa submeter à forma como a pessoa com quem se relaciona pensa e sente e entra em conflito. Quem tem uma boa empatia consegue ser um bom líder, um bom mediador, faz com que as pessoas se envolvam com os seus objetivos e compartilhem. O desenvolvimento da empatia facilita a vida das pessoas.
  6. Leitura corporal – É a capacidade para perceber como se sentir do ponto de vista físico. Uma pessoa na intolerância pode ser extremamente sensível (como o hipocondríaco, por exemplo) e na passividade pode trabalhar até a exaustão porque não se dá conta do esforço que está fazendo.
  7. Otimismo com a vida – O excesso de otimismo é quando eu acredito que tudo vai dar certo, mesmo quando não depende de mim. Exemplo: vou ganhar na loteria. No outro extremo vem o pessimismo, que ocorre quando eu tenho as condições para realizar, mas eu não acredito. O otimismo equilibrado traz a capacidade de ver que as coisas podem melhorar, mas na medida em que condições pessoais e as condições do contexto e do ambiente permitem acreditar nisso.
  8. Sentido da vida ou propósito – A passividade nesse comportamento é o famoso “deixa a vida me levar”, esperando o que vier, não tenho pelo que lutar. O excesso, a intolerância desse sentido da vida é o fanatismo, radicalismo.

Conclusão

Para o especialista, o ideal de Resiliência é conseguir o equilíbrio de todos esses comportamentos: “Quando as pessoas têm muitas posições nos extremos, elas têm um conflito e um estresse permanente. São pessoas com problemas de relacionamentos. O importante é saber que é possível treinar as pessoas para que elas diminuam o grau de conflito e tenham ganhos em direção à flexibilidade. Não há correlação entre esses comportamentos, não seguem uma regra e são independentes”.

João Marcos tem aplicado a técnica com famílias, organizando treinamentos dos familiares para criar identidade, intensificar os vínculos, aumentar a autoconfiança (empoderamento) e a comunicação (empatia na família). “Depois que conseguimos consolidar esses pontos, é possível que a família se una para compartilhar uma visão de futuro, planejar esse futuro, construir um conselho de família para preservar o patrimônio e dar segurança para as próximas gerações. Chamamos esse processo de Governança Familiar, tendo na primeira etapa uma fase comportamental e depois a fase operacional de planejamento”, conclui.

Para saber mais: http://sobrare.com.br

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O curso com a psicóloga Sonia Fuentes começa dia 1º de Outubro

Nosso cérebro precisa de exercício para funcionar bem e evitar a perda de neurônios que chega com a idade. Pequenos lapsos são normais, mas quando você aprende a turbinar seu cérebro consegue melhorar a memória, ter mais concentração, exercer a criatividade e ter mais facilidade de aprendizado.

Oficina de memória e criatividade é destinada a pessoas interessadas em desenvolver e exercitar sua memória e em aperfeiçoar estratégias de prevenção de problemas a ela relacionados. Além do conteúdo básico teórico para compreender o funcionamento dos mecanismos do cérebro, haverá práticas para o aprimoramento da memória. Quanto mais desafios e atividades de estímulo à memória nos impusermos, menores serão, ao longo da vida, os riscos de déficit. Segundo vários estudos, a rede sináptica é dinâmica e pode ser ampliada durante toda a vida. Usar o cérebro permite formar novas conexões com outros neurônios.

Como será 

Coordenação: Dra. Sonia Fuentes, Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Especialista em Geriatria e Gerontologia pela Escola Paulista de Medicina. Especialista em Medicina Psicossomática pela ABMP. Especialista em Cinesiologia pelo Instituto Sedes Sapientiae. Sonia é autora do “Tecendo o chamado de Atena e Aracne”, da Portal Edições.

Duração: 8 encontros

Outubro: dias 01, 08, 15, 22 e 29;

Novembro: dias 05, 12 e 26

Às segundas-feiras

Horário: das 18 às 20 horas

Local: Rua Pamplona, Jardim Paulista, São Paulo, SP.

Limite de inscrições: até 15 participantes

Valor total: R$ 480,00 (3 x de R$ 160,00)

Para participantes do Ideac: R$ 432,00 (3x de R$ 144,00)

Inscrições e informações

Site:  http://www.ideac.com.br/

Blog: https://ideacblog.wordpress.com

https://www.facebook.com/ideacnovo/

Twitter :  @ideacnovo

Canal do Youtube: O novo da velhice

Istagram: @ideac7

Inscrições pelo e-mail cadastro@ideac.com.br ou pelos telefones (11) 3885-0091 e 99946-3554


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Recentemente o Jornal The New York Times publicou matéria sobre uma experiência interessante realizada na Holanda para pacientes com demência. O autor é Ilvy Njiokiktjien e o texto foi traduzido para nossas redes sociais pela psicóloga Maria Celia de Abreu, coordenadora do Ideac:

“Estamos perdidas”, disse Truus Ooms, 81, para sua amiga Annie Arendsen, 83, enquanto andavam juntas num ônibus urbano. “Sendo o motorista, você teria obrigação de saber onde é que estamos”, disse Ms. Arendsen para Rudi ten Brink, 63, que estava sentado no banco do motorista do ônibus.

Mas ela estava brincando.

Os três são pacientes demenciados em um estabelecimento ao leste da Holanda. O passeio de ônibus deles – uma rota pelas estradas planas e ladeadas de árvores da zona rural holandesa – era uma simulação que é projetada várias vezes por dia em três telas de vídeo.

É parte de uma abordagem não ortodoxa para tratamento de demência em que médicos e cuidadores holandeses têm sido pioneiros: aproveitamento do poder do relaxamento, de memórias de infância, auxílios sensoriais, música suave, estrutura familiar e outros instrumentos para curar, acalmar e estimular os residentes, em vez de confiar nas velhas receitas de repouso na cama, medicação e, em alguns casos, contenção física.

“Quanto mais se reduz o stress, melhor”, disse Dr. Erik Scherder, um neuropsicólogo da Vrije Universiteit Amstendam e um dos mais conhecidos especialistas em cuidados com demência.  “Se você baixar o stress e o desconforto, isso tem um efeito fisiológico direto”.

A simulação de passeios de ônibus ou em praias – como uma que existe num estabelecimento em Haarlem, não distante de uma praia real – criam um ponto de encontro para pacientes. A experiência compartilhada leva-os a falar sobre passeios anteriores e tirar um mini fim de semana em suas vidas diárias.

A demência, um grupo de síndromes relacionadas entre si, manifesta-se num declínio rápido das funções cerebrais. Rouba das famílias seus entes queridos e consome recursos, paciência e finanças.

Cerca de 270 000 holandeses – aproximadamente 8,4 por cento dos 3.2 milhões de habitantes com mais de 64 anos de idade – tem demência, e o governo prevê que esse número vai dobrar nos próximos 25 anos.

Em anos recentes, o governo tem preferido pagar “home care” do que manter um estabelecimento licenciado, de modo que a maioria das pessoas com demência vive em casa. Os estabelecimentos, que são administrados por particulares, mas contam com fundos públicos, são em geral reservados para pessoas em estado avançado da doença.

Nos anos 90, os holandeses começaram a pensar de modo diferente sobre como tratar a doença, afastando-se de uma abordagem medicamentosa. “Nos anos 80, os clientes eram tratados como pacientes em um hospital”, disse Ilse Achterberg, uma antes terapeuta ocupacional, que foi uma das pioneiras das salas “sensoriais” (“snoezel”), que combinam terapia por luz, aroma, massagem e som, e permitem que os pacientes relaxem e acessem emoções que são frequentemente bloqueadas em ambientes clínicos estressantes. Estas salas foram as precursoras de algumas das técnicas encontradas hoje em muitos estabelecimentos da Holanda.

Técnicas inovadoras

No lar Amstelring Leo Polak em Amsterdan, por exemplo, há a reprodução de um ponto de ônibus, onde Jan Post, um paciente de 98 anos de idade, muitas vezes se senta e beija sua esposa, Catahrina Post, quando ela o visita.

Mr. Post, que tem uma demência severa, só consegue criar 10 segundos de memória de curto prazo e tem medo de não encontrar o caminho de volta ao seu quarto quando sai dele.

“Setenta anos casados e ainda nos amamos”, disse Ms. Post, 92, que faz visitas várias vezes por semana. Recentemente, os Posts estavam bebendo e papeando no Bolle Jan, uma recriação de um restaurante real de Amsterdã, feita numa área de convivência do lar. Se os entornos eram falsos, o álcool era de verdade, e as piadas, frequentemente repetidas, provocavam gargalhadas verdadeiras. A cantoria, por vezes cambaleante, era entusiástica.

Enquanto cuidadores e acadêmicos acreditam que tais ambientes ajudam os pacientes demenciados a lidar melhor com a vida, é difícil chegar a uma evidência sólida de sua eficácia a longo termo, em parte porque essa condição é incurável.

Mas Katja Ebbbem, que trabalha com cuidados intensivos em Vitalis Peppelrode, um estabelecimento em Eindhovem, no sudeste do país, disse que ela notou que com as novas técnicas os pacientes precisavam de menos medicação e menos contenções físicas.

Willy Briggen, 89, que está em avançado estágio de demência, vive no estabelecimento de Eindhove. Como muitos demenciados, Ms Briggen algumas vezes fica impaciente, até mesmo descontrolada. Os surtos exigem um esforço da equipe da casa, que luta para lidar com sua frágil estrutura. Há uma década, teriam lhe prescritos drogas ou contenção para lidar com os rompantes.

Mas quando ela fica inquieta, a equipe liga um projetor no quarto dela, que produz imagens calmantes e sons suaves. Numa visita recente, Ms. Briggen foi de um estado emocional de óbvio desconforto para um de calma reflexiva, enquanto ela olhava para o teto de seu quarto particular, que estava enfeitado com a projeção de cenas da natureza, inclusive de patos.

Dos 210 residentes no estabelecimento Eindhovem, 90 têm demência e estão restritos a andares especiais para sua própria segurança. O prédio de tijolo aparente e vidros tem assoalhos de linóleo, tetos baixos e portas largas para permitir a passagem de camas sobre rodas. A despeito do estilo médico, sua decoração tem ecos de uma era passada, quando Ms Briggen teria sido uma menina.

Os andares exibem móveis antiquados, de madeira escura, e os cômodos são decorados com livros, telefones de discar e máquinas de escrever de 50 libras. As mesas da lanchonete são cobertas por toalhas de tecido e flores frescas. Eles não têm o odor de um hospital.

Ao repensar em como lidar com pacientes com demência, muitos centros focalizaram nos ambientes. Outra tática é reorganizar os residentes para criar agrupamentos de “família” de seis a dez pessoas.

Os residentes de muitos dos estabelecimentos holandeses têm seus próprios quartos, e são encorajados a considera-los seu território próprio. Com frequência há uma sala de uso comum e uma cozinha, onde residentes ajudam em tarefas como descascar batatas e lavar salada.

Na luta contra depressão e passividade, que são frequentemente sintomas da condição, os cuidadores também procuram estimular os residentes com atividades como dança.

Cuidados especiais

“É na verdade em relação a todas as pequenas coisas que compõem uma vida normal”, disse Pamela Grootjans, uma enfermeira de Sensire Den Ooman, o estabelecimento em Doetinchem que oferece o passeio de ônibus simulado.

Na moradia com cuidados especiais Christian Beth-San em Moerkapelle, próxima ao The Hague, Arie Pieter Hofman, 87, e Neeltje Hofman-Heij, 88, usam uma bicicleta simulada conectada a um  tambor posto em rotação quando pedalam para percorrer cenas de sua antiga vizinhança em Gouda, projetadas em uma tela plana.

A companhia que faz o passeio de bicicleta, Bike Labyrinth, vendeu o simulador a mais de 500 estabelecimentos na Holanda. O fabricante holandês dos projetores, Qwiek, diz que há unidades em 750 estabelecimentos holandeses.

“A ideia é desafiar um pouquinho o paciente, de um modo positivo,” diz Dr. Scherder, o neuro-psicólogo de Amsterdã. “Deixá-los numa cadeira, passivos, torna a progressão da doença muito mais rápida. “

Numa recente visita ao centro de cuidados Vreugdehof em Amsterdã, uma residente, Anna Leeman-Koning, 90, brincava com uma foca terapêutica robótica. Ela ajuda a trazer à tona velhas emoções, momentaneamente afastando a desorientação causada pela perda irreversível e progressiva das faculdades do paciente.

Mas a foca começou a sacudir demais sua cauda robótica, preocupando Ms Leeman-Koning. “Por favor se acalme, por favor se acalme,” ela disse. “O que posso fazer para acalmar você?”

Leia o artigo na íntegra em Inglês:

https://www.nytimes.com/2018/08/22/world/europe/dementia-care-treatment-symptoms-signs.html?utm_source=meio&utm_medium=email


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Por Eoghan Macguire, CNN – 24/agosto/2018

(Tradução da psicóloga Maria Celia de Abreu )

 

(CNN) – Qual é o segredo de viver até os 100? Alguns dizem que é garantir muito exercício; outros apontam para os benefícios de um clima ameno. Há até alguns que sugerem que uma vida sexual sadia tem muito a ver com isso.

O número de pessoas que vivem até os 100 anos pode ser relativamente pequeno, mas está se tornando mais comum – particularmente em países como o Japão, que tem a mais alta proporção de centenários no mundo.

Dados do Ministério da Saúde do Japão estimam que em 2017 havia 67.824 japoneses com 100 anos ou mais. Em 1965, quando o país começou a registrar estatísticas de cidadãos velhos, havia apenas 153 centenários.

Em resultado, os políticos no Japão começaram a considerar como prover para aqueles que chegavam ao clube dos 100 – e o que encontraram pode ser [útil para o resto do mundo nos próximos anos.

No ano passado, o Primeiro Ministro japonês Shinzo Abe conduziu uma série de encontros no Conselho para Planejar a Vida com Mais de 100 anos em Sociedade, um grupo de especialistas formado para preparar um aumento no número de centenários.

A comissão analisou questões tão diversas como reformar as políticas de seguro social, reavaliar o que significa ser mais velho e a diversificação de práticas corporativas de empregabilidade. Mas não é só para mais centenários que o país está tendo que se preparar.

Desafios de uma população que envelhece

Vinte e sete por cento da população do Japão tem 65 anos ou mais, de acordo com dados do Banco Mundial. Em 1990, era apenas 11%.

Enquanto viver mais é geralmente algo positivo, isso cria inevitavelmente uma porção de desafios práticos, tais como o fardo sobre o Estado para prover serviços, pensões e cuidados para um número crescente de velhos. No Japão, isto vem junto com um baixo índice de nascimentos, o que significa que há menos pessoas com idade de trabalhar para pagar pelos serviços para os velhos através de impostos ou de trabalho para companhias japonesas.

O número de recém-nascidos caiu durante 37 anos consecutivos no Japão, e o Ministério da Saúde faz uma projeção de que a população irá ascender de seus atuais 126.26 milhões para 86.74 milhões por volta de 2060.

Uma vida ‘multi-estágios’

Entre os que estiveram nos primeiros encontros do conselho de Abe, estava Lynda Gratton, professora de prática de negócios na London Business School e coautora do livro “Os 100 Anos de Vida: Viver e Trabalhar numa Idade Longeva”.

Quando considerando esta questão de populações que envelhecem, ela diz, é importante que os governos e empresas “contem uma história” sobre como as pessoas podem começar a viver “vidas multi-estágios” onde elas conseguem fazer pausas na carreira e trabalhar por mais tempo e em numerosas áreas. Esta “narrativa” ajudará a assinalar os desafios que virão e a encorajar a conversação sobre como será a vida em sociedades que envelhecem, acrescenta Gratton.

O governo japonês propôs estender a idade para aposentadoria obrigatória de 60 para 65 anos. Também mencionou encorajar uma “educação recorrente”, ajudando pessoas a serem retreinadas ao longo de suas carreiras profissionais, assim como permitindo que aquelas que quiserem trabalhar em idades avançadas o façam.

O Professor Hiroko Akiyama, do Instituto de Gerontologia a Universidade de Tóquio, acredita que estas são novidades benvindas, mas diz que o ritmo da mudança necessita ser mais rápido. “Nossa força de trabalho está encolhendo, então temos que tomar medidas drásticas agora,” disse ele.

Akiyama chama a atenção para como o escritório compartilhado, padrões de trabalho flexíveis e a telecomunicação podem todos desempenhar um papel e ajudar mais pessoas a ficarem por mais tempo em suas carreiras. As descobertas da inteligência artificial e da robótica, longe de reduzir oportunidades de emprego, também podem ajudar os mais velhos a trabalhar por mais tempo, compensando qualidades que as pessoas podem perder ao envelhecer, como por exemplo forca ou flexibilidade, ela acrescenta.

Além do mundo do trabalho, os sistemas de cuidados com a saúde serão provavelmente afetados por populações que envelhecem e forçados a se adaptar a isso. Política e valores também poderiam estar começando a se modificar, com os mais velhos sendo em geral considerados eleitores mais conservadores.

Lidando com um mundo que envelhece

O Japão tem sido uma das nações que mais visivelmente considera estes desafios, mas está longe de estar sozinho no ser afetado por eles.

A população global de pessoas mais velhas (aquelas com 60 anos ou mais) importava em 962 milhões em 2017, de acordo com o relatório das Nacões Unidas sobre o Envelhecimento Populacional (UN World Population Ageing). Isso é mais que o dobro do que em 1980, quando havia 382 milhões de pessoas mais velhas no mundo, e espera-se que o número dobre de novo por volta de 2050, alcançando cerca de 2.1 bilhões.

O envelhecimento das populações é mais pronunciado na Europa e na América do Norte, segundo o relatório. O Escritório de Censo dos Estados Unidos (US Census Bureau) projeta que o número de centenários lá irá inflar de 86,248 em 2017 para 600,000 por volta de 2060. Até o momento estas questões também estão pesando nas considerações de Hong Kong, Coréia do Sul, Singapura, Austrália e Nova Zelândia.

Lá por 2050, espera-se que as pessoas mais velhas componham 35% de populações na Europa, 28% na América do Norte, 25% na América Latina e Caribe, 24% na Ásia, 23% na Oceania e 9% na África, segundo estimativa do relatório das Nações Unidas.

Gratton aponta desenvolvimentos positivos na Dinamarca, que tem procurado por cenários para futuro cuidados com os mais velhos, e Singapura, que ela diz que tem revisto suas políticas e removido quaisquer sugestões de que pessoas mais velhas podem ser menos capazes de desempenhar certas tarefas ou papéis do que pessoas mais jovens.

Akiyama, enquanto isso, diz que o Japão tem sido forçado a considerar a questão antes do que a maioria das nações devido ao ritmo em que sua população está envelhecendo. Os políticos do país também parecem menos ávidos do que outros para atrair jovens trabalhadores estrangeiros.

Idade de oportunidade?

Hoje em dia também pode haver oportunidade dentro dos desafios de uma sociedade que envelhece.

Os negócios no Japão começaram a abrir academias de fitness que atendem aos mais velhos, enquanto cuidadores robôs têm sido introduzidos em moradias para idosos, aparelhos caros que podem se tornar lucrativos itens de exportação.

Gratton diz que o Japão está à frente de robôs e máquinas que assistem os mais velhos enquanto “os que tem mais de 55 estão gastando mais do que qualquer um” no país.

Entretanto, ela acrescenta que os países precisam também começar a planejar globalmente para um futuro no qual a vida tradicional em três setores, estudar, trabalhar e se aposentar, não se aplica mais.

As pessoas tornaram-se muito mais proativas”, ela diz. Tanto quanto planejar, economizar e manter-se saudável, ela precisa ser mais esperta sobre como será o futuro.”

Em vez de pensar sobre ficar ainda mais velhas, as pessoas deveriam pensar sobre ficar mais jovens por mais tempo.

Link do artigo em inglês: https://www.cnn.com/2018/08/24/health/japan-100-year-life/index.html

 


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Através da última pesquisa divulgada em 2017 pelo Ministério da Saúde, ficamos sabendo que cerca de 30 pessoas tiram a própria vida no Brasil todos os dias. O suicídio é a quarta causa de morte entre jovens, mas entre os idosos os números também são preocupantes. A taxa de suicídio é maior em idosos com mais de 70 anos. Nessa faixa etária, foram registradas em média 8,9 suicídios por 100 mil pessoas nos últimos seis anos. A média nacional é 5,5 suicídios por 100 mil pessoas. Os números também são preocupantes em outros países. Em Quebec, no Canadá, num simpósio sobre o suicídio de idosos realizado pela Associação de Aposentados de Instituições Públicas e Paraestatais (AQRP) foi revelada uma triste realidade: de acordo com dados do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSPQ), o grupo etário com 65 anos e mais é o segundo que apresenta maior índice de suicídios entre os idosos. Em 2008, 137 pessoas com 65 anos de idade morreram por suicídio no Quebec. Entre as razões para essa alta incidência de suicídios entre os idosos, estão a solidão, o perceber-se socialmente inútil, a depressão, o abandono, o surgimento de uma doença sem perspectiva de cura ou apontando para uma prolongada e crescente dependência, a penúria financeira etc.

Em uma organização social que professe valores humanistas, em detrimento da competição e do lucro sem limites, que reconheça o valor do velho, e que o ampare, respeite seus direitos e se recuse a aceitar preconceitos contra o idoso, esse índice será, sem dúvida, sensivelmente rebaixado.


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Por Maria Celia de Abreu (*)

É muito bom saber que um fato acreditado pelo senso comum é referendado pela Ciência. É o caso de um estudo de pesquisadores do Instituto Pasteur, na França, e da Universidade de Haifa, em Israel, tema do artigo de Suzana Hercula Houzel na Folha de S. Paulo, dia 31 de julho.

As pesquisas concluem que duas pessoas de mãos dadas têm as ondas de seus respectivos cérebros sincronizadas. Em ambas se estabelece uma sensação prazerosa e, se uma delas está com dor, surge um efeito analgésico, enquanto aumenta a capacidade de empatia da outra.

Trabalhos de observação de comportamento, bem como a sabedoria popular, já indicavam a importância do toque para a saúde emocional e física do idoso, e dos prejuízos quando ele não existe. Claro que, como em todas as regras, há quem sinta o toque físico como desagradável, ou até mesmo insuportável, mas essa é uma minoria.

Infelizmente, dentro de uma cultura que desvaloriza o velho, e que também associa toque físico exclusivamente ao sexual, o velho é muito pouco tocado, afagado, abraçado, acariciado, massageado.

Precisamos divulgar que preconceitos levam a um desnecessário estreitamento de expectativa, e que a neuropsicologia tem feito descobertas marcantes que podem melhorar muito a qualidade de vida das pessoas em geral, e dos nossos velhos em especial.

(*) Maria Celia de Abreu é psicóloga e coordenadora do Ideac, autora do livro “Velhice, uma nova paisagem” (Ed. Ágora)