IDEAC Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico


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Suely Tonarque tem 67 anos, é pedagoga, psicóloga e tem Mestrado em Gerontologia – Percurso da Moda e a Realidade Atual. O interesse pelo tema do envelhecimento começou no ano 2008. Veio daí o projeto de criar moda para velhos. Como há 30 anos atua no segmento da moda, resolveu abrir com a irmã a loja Dudabyduda, à Rua Delfina 101, Vila Madalena, São Paulo. Nessa entrevista especial para o Ideac ela fala sobre seu trabalho:

Qual é a estética da velhice?

Com o envelhecimento, vamos percebendo as mudanças físicas e emocionais, e a estética se modifica durante esse processo. Cada indivíduo é singular e assim também sua forma de expressar a estética na velhice. O visual se transforma através dos anos, as vestimentas não podem mais ser as mesmas do passado porque o corpo sofreu mudanças. Não existe uma estética modelo para a velhice, ela é individual e particular.

Qual é a diferença entre criar moda para mulheres para velhas?

Quem cria moda para velhos deve ter em conta as mudanças corporais: com maior sensibilidade da pele, o tecido deve ser confortável. Como as medidas aumentam, os moldes não são os convencionais.  Pela flacidez dos braços, as mangas se tornam mais cumpridas e discretas. Há uma tendência de optar por cores mais neutras.

A moda ajuda a trazer mais alegria na velhice?

A alegria de viver depende de cada pessoa. A moda pode trazer uma satisfação na escolha da vestimenta, demostrando uma das facetas do desejo de viver.

O que é fundamental para uma roupa adequada para a mulher velha?

É importante primeiramente que a mulher aceite o seu envelhecimento para que suas roupas sejam adequadas a seu corpo, esse é o primeiro passo.

Como achar o estilo na velhice?

Existem dois estilos, o estilo que acompanha a vida da pessoa e o estilo de cada fase da vida. Também a moda determina algum estilo que o velho pode ou não se se identificar.

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Para continuar a série iniciada ontem sobre música e envelhecimento, entrevistamos músicos na maturidade apaixonados pelo que fazem. O tema “Arte e cultura no envelhecimento: música” será discutido durante o XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia que começa dia 6 no Rio de Janeiro, em mesa com o geriatra Daniel Lima Azevedo e o professor e músico Marcelo Fagerlande.

Pianista, com muito prazer

Joana Guidolin tem 73 anos e é pianista. Tocou na juventude, mas depois foi deixando de lado para seguir outros caminhos. Depois dos 65, quando se aposentou, resolveu ter aulas novamente e faz parte de um grupo de pianistas amadores que se encontra com frequência para aprender e trocar experiências, sempre com um professor. Aos 70 anos ela resolveu se dar um presente e lançou um CD, que ofereceu aos parentes e amigos no dia da festa.

Para ela, é um grande prazer tocar um instrumento: “Este prazer no piano, como é o meu caso, não é somente no momento final, quando a peça já está totalmente pronta para outros ouvidos, mas é um prazer que se sente durante o próprio estudo, pois praticar piano é estar sempre enfrentando desafios, é saber que, se persistir, irei conseguir. E aí é muito gratificante. O prêmio é sentir-se capaz, mais forte do que antes”.

Joana vê a música como um jogo com ela mesma: “Se, bem-sucedida, me sentirei mais potente. É um trabalho de paciência e de aquisição permanente de força. E na vida, não se tem de descobrir como ser forte a cada momento?”

Consultando seus amigos do grupo sobre os benefícios da música para a memória, ela diz que todos concordam que sim, pois o exercício de repetir, repetir e memorizar muitas músicas ajuda a estimular a memória: “Acreditamos que a memória é muito incentivada durante todo o tempo de estudo e a cada música aprendida e memorizada. Não sei se existe algo científico sobre isso, ou seja, como eu seria se não praticasse piano. Teria menos memória do que tenho hoje? Ou a memória musical fica em outro espaço do cérebro?”.

Joana também faz parte do Coral Canto da Casa, com 15 coralistas, com regência do maestro, Julio Battesti. Do grupo, seis coralistas têm mais de 65 anos e eles já fizeram um musical com um grupo de deficientes visuais no Tuca, cantam em festas, entidades e hospitais.

Alegria do Baretto

Aos 80 anos, o pianista Mário Edson Farah (foto do topo) toca quintas, sextas e sábados no Bar Baretto, sempre da meia noite até duas da manhã, e no Restaurante Fazano, às segundas e terças, das 21 às 22h30. Filho do compositor Nacif Farah, de Tatuí, Mário Edson nasceu em São Paulo, mas passou a infância e adolescência na cidade de seu pai. Durante anos dividiu a vida profissional entre o magistério e a música, mesmo quando veio para São Paulo tentar a sorte. Dava aulas, mas à noite tocava em casas noturnas, com um repertório voltado principalmente para a MPB. Mário Edson já conquistou muitos prêmios, entre ele o Governador do Estado, e é apaixonado pelo que faz. Quando a pergunta é se a música ajuda a memória, ele sorri e diz: “Tem que ensaiar todo dia, não dá tempo para esquecer. O importante é não parar”, completa.

Dupla de violeiros

Rose Blue e Décio Zylber são professores universitários (ela aposentada, ele ainda buscando coragem para parar de vez) e depois dos 50 anos resolveram aprender viola caipira e formaram a dupla Vereda Violeira. Com dois CDs gravados e inúmeras apresentações, inclusive com outros músicos, em eventos, bares, espaços de hotéis e em casas de idosos, eles são encantados pela viola caipira e muito dedicados aos estudos. Conhecem toda a história do instrumento, fazem aula de canto, ensaiam bastante, têm um repertório lindo e mantêm a expressão tranquila de quem se alimenta da música para afinar a alma.

Quando resolveram aprender, foram justamente ter aulas com um jovem professor de 17 anos. Rose diz que até pensou que não daria certo, mas, pelo contrário, ele com toda paciência e dedicação foi entregando os segredos e a música tomou conta da vida do casal. Décio comenta que eles cantam, tocam e contam causos, e que nas apresentações para os idosos sentem como a música é importante, resgata memórias e traz muita alegria. Muitos, no final das apresentações, chegam perto para contar que também tocaram um dia, e são incentivados pela dupla para voltar a tocar um instrumento. “Foi um desafio que resolvemos encarar e que deu certo. Com a música de viola, a vida abriu uma perspectiva de enraizamento e com ela é possível resgatar o tempo humano que muitas vezes é esquecido”, garantem. Dos filhos o apoio é total, mas quem vibra mesmo são os netos com a música dos vovôs. E assim, as modinhas de viola vão chegando a novos corações…


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Por Ivani Cardoso

“Envelhecer não é sofrer”, diz o geriatra Daniel Azevedo, um dos organizadores do XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, programado para o período de 6 a 8 de junho, no Windsor Convention & Expo Center, no Rio de Janeiro, que terá a participação de 180 palestrantes nacionais e internacionais.Daniel Azevedo é secretário geral da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e falou com exclusividade para o Ideac sobre as novidades do evento e as mudanças que estão acontecendo no campo da Geriatria. Um grupo de profissionais integrantes do Ideac também acompanharão o evento e teremos publicações diárias das novidades em nossas redes sociais.

Segue a entrevista:

Quais as principais mudanças na Gerontologia nos últimos tempos?

A SBGG tem mais de 50 anos e nosso congresso acontece a cada dois anos. Uma vez que a sociedade está envelhecendo, existe uma percepção maior do fenômeno e por isso é importante atender cada vez melhor esses idosos. A Gerontologia é o estudo desse fenômeno e temos profissionais de várias áreas, como advogados e arquitetos, por exemplo, com especialização em gerontologia. Tudo é importante para que a sociedade fique mais amigável para os idosos.

Como avalia esse crescimento dos idosos no país?

Os números são alarmantes, a expectativa em 2025 é a de que teremos no Brasil 32 milhões de pessoas, um contingente muitos expressivo. Entre as faixas etárias que mais crescem e mais rápido está a de 80 anos e mais. A população está se convertendo rapidamente em uma população de cabelos brancos, com uma série de repercussões para a saúde e previdência social, principalmente, uma vez que uma população que tem menos adultos deve sustentar uma população idosa.

Quais são os destaques dessa edição?

Conseguimos uma programação de ponta com excelentes especialistas do Brasil e do Exterior. Temos como destaques internacionais o professor Rui Nunes, especialista em Bioética e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), e o dr. Frank D. Ferris,  Diretor Executivo de Medicina Paliativa, Pesquisa e Educação da OhioHealth, em Columbus, Ohio, que fará a Plenária de Abertura sobre Envelhecimento no século XXI: o que você quer para si mesmo? Ressalto também na programação um workshop sobre planejamento avançado de cuidados, na quinta-feira, dia 7, com a enfermeira irlandesa Kate Irving, que trabalha na Dublin City University, Irlanda, onde é professora em Enfermagem em Saúde Mental. Ela é uma autoridade no cuidado de pessoas com demências e vai mostrar que esses pacientes conservam características da personalidade anterior e que é possível reduzir a prescrição de medicamentos. E teremos, ainda, o Simpósio da Associação Brasileira de Fisioterapia em Gerontologia, com instruções pioneiras.

Como vai funcionar a Extensão em Geriatria?

São atividades de informação para os médicos de outras especialidades da Geriatria que estão recebendo cada vez mais os pacientes de idade em seus consultórios, e querem se atualizar sobre tratamento dessas pessoas. São três dias de imersão com aulas de referências sobre os principais temas da especialidade. Ao final do dia, os participantes têm acesso às plenárias de encerramento.

Quais as principais condutas para o idoso ter uma vida mais plena?

Envelhecer não é sofrer, cada pessoa envelhece de acorçoo com a sua trajetória. Não vale a pena demonizar a velhice como um momento de muito sofrimento, mas por outro lado não se deve dourar a pílula. Entendo que seja fundamental a criação de uma rede para o idoso, seja de pessoas familiares ou amigos que podem prestar assistência ou uma rede de assistência à saúde. Quando a pessoa tem essa rede, o processo de envelhecimento tende a ocorrer de forma menos traumática.

Como avalia a situação do Brasil em termos de políticas públicas para os idosos?

Estamos caminhando. Acredito que o Brasil está vivendo um processo de transição demográfica da idade da sua população muito rápido e isso exerce uma pressão muito grande sobre os poderes públicos. Temos uma velocidade de resposta aquém do que gostaríamos, mas ela existe. Temos grandes especialistas envolvidos com isso, como Maria Angélica Sanchez Laura Machado, do Rio de Janeiro, e Karla Cristina Giacomin, de Minas Gerais. Há muitos profissionais levantando a bandeira do envelhecimento e representando o Brasil internacionalmente em debates sobre essas questões.

Como encara a cobertura da mídia para o tema envelhecer?

Há muita polarização ou algo estigmatizado quando douram a pílula em comerciais com idosos rodopiando felizes com sua vida sexual. O envelhecimento é um fenômeno muito complicado que não deveria ser banalizado. Mas é importante que o tema venha ocupando espaços na mídia.

Quais são os maiores desafios das próximas décadas na área de Gerontologia?

O grande desafio talvez seja atender a mudança da família contemporânea, que não é mais uma família geralmente tão receptiva e disponível para a pessoal idosa.


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Por Ivani Cardoso

Se o doutor José Ricardo Jauregui, Presidente da Sociedade Argentina de Gerontologia e Geriatria e Presidente eleito da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria (2021- 2025), pudesse escolher em que mundo gostaria de envelhecer, a resposta vem rápida: “Em um mundo onde se respeitam as pessoas sem diferenças de sexo ou idade e que os lugares onde eles moram estejam preparados para as dificuldades que enfrentam”.

Com vários títulos e muitas vivências na especialidade, ele sabe exatamente os desafios para chegar a esse mundo ideal, e falou com exclusividade para as redes sociais do Ideac. Ele será um dos participantes internacionais do XXI Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, programado para o período de 6 a 8 de junho, no Windsor Convention & Expo Center, no Rio de Janeiro, que será acompanhado por um grupo de pessoas que fazem parte do Ideac.

Entre seus títulos, estão os de Doutor em Medicina pela Universidade de Salamanca, Espanha; Especialista Universitário UBA em Geriatria; Diretor do Centro de Satélites Argentino do Instituto de Envelhecimento, Malta, Nações Unidas; e Membro do Conselho da Academia Latino-Americana de Medicina para Idosos.

Na Argentina

Atualmente, a população com mais de 60 anos na Argentina é de 10.3%, cerca de 4.300.000 milhões de pessoas. “Temos cidades com mais de 17% nessa faixa. A tendência é o crescimento. Para 2050 a expectativa é de 20% de idosos na população geral”, informa o dr. Jauregui.

A Argentina foi pioneira em alguns procedimentos legais ligados à velhice em termos de políticas públicashá muita consciência governamental sobre os direitos dos idosos, mas os benefícios ainda não são vistos e as leis tampouco respeitadas, segundo o especialista.

Outro ponto levantado pelo médico é o papel da tecnologia na vida dos idosos: “Ela deve facilitar a realização de atividades da vida diária, colaborar no acesso a tratamentos de saúde, simplificar a comunicação e melhorar o meio ambiente onde os idosos vivem, o estudo e os contatos sociais, além de criar projetos de ajuda para combater a solidão, entre outros”, comenta.

Desafios

O geriatra acredita que a aposentadoria da vida ativa deve ser opcional, mas defende um limite de idade para que seja definitiva. Na questão idade, outro grande desafio no país é lidar com os altos percentuais de incapacidade e doenças crônicas na população de idosos, principalmente naqueles com mais de 80 anos. Em sua opinião, a solução passa por um plano nacional de saúde e cobertura social voltada para doenças crônicas e incapacidades: “É preciso contar com cuidadores treinados para ajudar os idosos e respeitar as decisões pessoais daqueles que podem tomá-las. Também é necessário incentivar a Medicina preventiva desde uma idade mais jovem, com base em nutrição, exercícios, vacinas e atividades que favoreçam o bem-estar, além de evitar o fumo, o excesso de álcool ou outras drogas ao longo da vida”.

Como em outros países, à medida em que a população envelhece, o número de pessoas com enfermidades como o Alzheimer na Argentina aumenta proporcionalmente. O foco deve estar em trabalhar desde anos anteriores para evitar os fatores de risco para a enfermidade. “Isso ajuda a atrasar o seu começo. E uma vez instalada, trabalhar com os grupos de ajuda a familiares com o suporte dos serviços sociais e da saúde para sejam cuidados. Sem dúvida, algumas dessas medidas devem ser implantadas pelo Estado”, afirma dr. Jauregui.

Pelo mundo

O conhecimento dos profissionais de saúde e o suporte gerontológico são preocupações crescentes da Geriatria em países da América Latina. Hoje são realizadas pesquisas em muitos países e muitos têm leis de apoio aos direitos humanos para os idosos e planos nacionais ou regionais que oferecem boa cobertura de saúde e suporte social. “De qualquer forma, ainda estamos com regiões muito atrasadas no desenvolvimento de uma sociedade comprometida com o cuidado de seus idosos”, lamenta o especialista.

Como Presidente eleito da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria (2021/2025), atualmente presidida pelo Prof. John Rowe, dos Estados Unidos, José Ricardo Jauregui diz que a entidade está trabalhando em vários programas das Nações Unidas para defender os direitos dos idosos. De todo o mundo, além de assessorar a OMS através de seus próprios programas, é a instituição de formação de gerontologistas em diferentes países do mundo nos cinco continentes através de sua academia de treinamento.

Em termos globais, os países da Europa Central, como Holanda, Países Escandinavos, Reino Unido, Alemanha ou Espanha, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Japão e Coreia do Sul são os que mais desenvolvem programas, serviços ou infraestruturas de apoio a pessoas idosas.


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Durante 38 anos Iracema Nogueira foi publicitária, atuou como atriz, dubladora e locutora. Aos 60 anos, a dificuldade de arranjar trabalho constante na publicidade fez com que buscasse outras opções e começou a organizar eventos, uma área que ela conhecia bem. Nesses eventos conheceu a profissão de celebrante, se apaixonou e resolveu investir nela, usando seus conhecimentos para fazer do seu jeito. E deu certo. Ela diz que conseguiu juntar o melhor dos mundos: “Tenho trabalhado como publicitária, em jobs pontuais, o que me dá um grande prazer, e como celebrante, o que me energiza e me faz sentir plena por saber que consigo mexer com as emoções das pessoas. Claro que tive e sigo tendo que adaptar minha vida e meus gastos a essa nova realidade, bem diferente de quando eu trabalhava em grandes empresas, mas essa transição após os 60 anos me fez renascer e trouxe experiências e emoções que jamais imaginei vivenciar”. Acompanhe sua entrevista:

Como virou celebrante?
Como publicitária sempre trabalhei na área de produção (de comerciais para TV) e durante anos tentei pensar num plano B, mas nunca consegui parar e pensar seriamente. Como, aos 60 anos, me vi desempregada pela primeira vez na vida, enquanto buscava trabalho na minha área, achei que era hora de colocar para funcionar alguma outra atividade que tivesse a ver com as minhas habilidades de organizar/gerenciar “grandes circos” e percebi que eventos seria uma boa alternativa e que me daria prazer.

Busquei informação sobre este segmento, frequentei alguns dos muitos workshops que existem, e me tornei uma assessora, fiz um site e comecei a trabalhar. Paralelamente trabalhava como publicitária, pois havia conseguido colocação numa produtora de vídeos (trabalho bem diferente dos anteriores, que eram em agências de propaganda, e que ocupava menos do meu tempo). Levei assim por um ano, e foi neste período, nos trabalhos como Assessora de casamentos, é que descobri a atividade de Celebrante – mulher – de casamento.  Eu me apaixonei e me perguntei se teria a capacidade para exercê-la.

Como descobriu a vocação?

Descobri porque sabia extrair um briefing de um cliente em agência de propaganda, portanto saberia extrair a história de um casal, numa entrevista. Sabia escrever e resumir um briefing, portanto saberia desenvolver o texto de uma celebração, que é baseada na história do casal. E, por fim, falar em público não era problema, pois já trabalhei como atriz. Novamente fui em busca das possibilidades de formação nesta área, percebi que teria que traçar o meu próprio caminho e celebrar à minha maneira, usando o meu jeito, a minha descontração, ao invés de criar uma personagem formal que, muitas vezes,  vem à mente quando se pensa num Celebrante. E logo percebi que há espaço para todos os tipos/personalidades. Há quem busque uma celebração com tom formal e há quem prefira uma certa descontração, alegria, sem deixar de se emocionar, claro, que é onde me enquadro.

A profissão está na moda?
Não sei se é exatamente uma moda, mas é uma alternativa que tem sido procurada por casais de noivos  que querem realizar a celebração no mesmo espaço da recepção (sitio, buffet, salão de festa do prédio, casa de campo etc) e percebo que é mais popular nas grandes cidades que nas cidades do interior, onde casar na igreja ou templo ainda é o usual. Eu tenho uma teoria: nas grandes cidades há o grande problema do deslocamento, de estacionamento, de segurança, e acredito que isto contribua para os casais optarem por fazer tudo num local só.  E, claro, neste caso, para os católicos é impossível ter um padre, pois eles não podem celebrar fora da igreja, e também há muitos casais de religiões diferentes, ou agnósticos, ou ateus.

Não há um padrão?
Como a celebração é poética e formatada conforme as crenças religiosas (ou não) e de vida do casal, tudo é possível.  Não podemos esquecer os casais homoafetivos, que praticamente não têm outra alternativa. E há um segmento que eu amo: o celebração de bodas ou renovação de votos! Qualquer boda. Não precisa ser 25 ou 50, 60 anos.  Sempre há muita história, muita emoção, envolve filhos, netos e anos de momentos importantes, bonitos e também divertidos para contar. E a celebração, nesses casos, envolve a participação desses filhos e netos, o que torna tudo muito bonito.

 O que é preciso para ser celebrante?
Antes demais nada, ter desenvoltura e tranquilidade, gostar mesmo de falar em público.  Mas, antes disso, saber extrair do casal o que há de interessante na história deles (e sempre há, pois toda história de amor é uma grande história) e ter a capacidade de escrevê-la, levando em conta o timing e a forma para que ela não se torne uma simples biografia, uma timeline da vida deles. Tem que ser escrita e depois contada de maneira interessante, pensando no tempo para gerar reação quando cito algo divertido ou quando falo de fatos sérios e emocionantes. É como se fosse a edição de um filme, e aí mora outra competência que jamais pensei que usaria fora  da área de propaganda ou cinema: o timing certo para contar uma história e fazer as pessoas se envolverem e se emocionarem.

Como funciona? Você encontra os noivos antes?
Em geral me encontro com os noivos antes de fecharem de vez. Se eles já assistiram alguns vídeos que tenho e se interessaram, marcamos um café, sem compromisso, para que me conheçam. Como sempre digo, para sentirem se vão com a minha cara.  A maioria pede para pensar, até porque costumam conhecer vários celebrantes antes de se decidirem. Alguns fecham, outros não, pois este encontro é decisivo para sentirem se há empatia ou não. Uma vez fechado, se houver o efeito civil teremos que começar a nos falar mais frequentemente, cerca de três meses antes do evento, mas para fechar o conteúdo da cerimônia só marco de conversar por volta de um mês antes. É uma conversa de umas duas horas ou mais e é a base para tudo que vou criar.

Para você, o que é essencial para fazer uma bela cerimônia?
Empatia e confiança do casal em relação ao Celebrante, pois estarão entregando nas mãos dele a condução de um dos momentos mais importantes da vida deles. Eu, como Celebrante, tenho absoluta consciência da minha grande responsabilidade, pois não posso falhar, errar, não emocionar. E para isto não há outra maneira a não ser me colocar de corpo, alma e principalmente de coração, ao escrever e ao celebrar. Sou chorona, então já aviso os casais que fatalmente chorarei… Se não for assim, não faria sentido para mim celebrar. Quando o casal se entrega e acontece uma cumplicidade grande entre eles e eu, é mágico! Nossas trocas de olhares, a reação deles ao que falo, ao ouvirem a própria história contada de uma maneira diferente, chegam aos convidados e envolve todo mundo numa energia incrível!

Geralmente são os jovens que recorrem a um celebrante?
Todas as celebrações de casamentos que realizei foram de casais entre 20 e 40 e poucos anos, mas já celebrei uma Bodas de Diamante linda!  Um casal americano de 80 e poucos anos, cujos filhos participaram pelo skype, lá dos US.  Celebrei em inglês e foi inesquecível. Portanto, não é uma questão de idade, mas “de cabeça”, de pessoas que buscam uma forma diferente para celebrar o amor. Aliás, faço questão de chamar de celebração e não de cerimônia, porque, para mim, é um momento de profunda alegria, de compartilhar esse momento com quem o casal ama, com quem faz parte da história deles.

Há alguma ligação com religião?
Eu sou uma Celebrante laica, mas eu diria que 80% dos casais que me procuram têm alguma crença, porém a grande maioria prefere que o tom de religiosidade seja ecumênico, até mesmo em respeito aos convidados e familiares, que costumam professar religiões variadas.  Nesses casos, falo sobre um Deus universal, energia suprema do Universo. Mas há casos em que claramente falamos de uma religião, fazemos uma oração, ou leio um trecho da Bíblia escolhida por eles. E houve uma, judaico católica, que foi lindíssima! O noivo, paramentado para um casamento judaico, a noiva, com um terço enorme, lindo, e no final entraram os avós de ambos, levando a taça para o noivo realizar a cerimônia da quebra da taça (para a qual contei com a ajuda do pai dele que fez a oração em hebraico) e a avó levou uma Nossa Senhora que foi em um pequeno altar.

Há vários tipos de cerimônias?
Dentro do pequeno roteiro da celebração há o momento de realizar uma cerimônia de união, como costumo chamar. Proponho uma das quatro que são as que mais me falam ao coração: areias coloridas, ou o plantio de uma arvorezinha, ou a cerimônia das luzes/velas ou, ainda, a cerimônia dos vinhos. E também já tive o prazer de criar duas, específicas, baseadas nas raízes étnicas dos casais (Irlanda e Japão). Para maio, estou trabalhando na criação de uma que será baseada na energização da água. Adoro quando me propõem o desafio de criar algo novo, pertinente àquele casal.

Pode contar algum caso interessante em uma celebração?
Ah… tem várias situações gostosas que acontecem. Uma delas é quando, através do texto e do tom como coloco, consigo instigar algum convidado a dizer algo, a brincar, enfim, a interagir. E já aconteceram várias intervenções deste tipo, sempre muito gostosas. Outra situação que é muito emocionante é a participação intensa e carinhosa das famílias nos casamentos homoafetivos.  É muito bonito sentir que o amor pelos seus filhos ou filhas fala mais alto do que qualquer convenção. Mas, o mais prazeiroso é o final da celebração, quando abraço os noivos e eles me dizem “foi a nossa cara”, ou quando algum convidado vem me perguntar a que turma de amigos pertenço, pois sentiram tamanha intimidade com a história do casal que acham que sou uma amiga que eles não conheciam.

 

(*) O contato de Iracema é iracema-nogueira@uol.com.br


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Dor é a maneira de o corpo dizer que algo está errado e pode envolver aspectos biológicos, psicológicos e sociais. De acordo com a Medicina, é uma sensação desagradável, uma espécie de sentimento e uma forma de reagir, portanto, um comportamento. A psicóloga Dirce Maria Navas Perissinotti, diretora administrativa da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), explica que a dor crônica pode ser psicológica e isso não quer dizer que ela não exista: “Não é coisa da cabeça! Não é simulação! Não é crise histérica! Não é vagabundice!”. Segundo ela, a dor psicológica existe porque, uma vez o sistema biológico ativado, ele se habitua em responder do mesmo jeito porque foi condicionado: “Não se trata a dor, particularmente a crônica, de uma única maneira. Seu tratamento é multidisciplinar porque a dor é multifatorial”. Como o assunto é muito interessante, publicamos uma entrevista exclusiva com a psicóloga Dirce Perissinotti. Confira:

Mulheres estão mais sujeitas à dor crônica?
Segundo pesquisas publicadas sim, as mulheres têm sido mais sujeitas ao desenvolvimento de dor crônica. As justificativas para o fato são relacionadas à predisponentes genéticos, hormonais desde a época fetal, bem como relativas à exposição a estressores ao longo da vida. Não se tem identificado grandes alterações no fato em diferentes culturas o que chama a atenção dos pesquisadores e respondem alegando que também as mulheres são mais voltadas ao autocuidado e buscam mais os serviços de assistência à saúde, além de participarem mais dos protocolos de pesquisa. Com isso, estuda-se mais a população feminina o que poderia contribuir para que se saiba mais sobre a dor crônica em mulheres.

Dizem que na juventude e vida adulta sentimos o corpo pelo prazer e na velhice pela dor, concorda com isso?
Concordo em parte. Esse dito é mais uma observação popular do que constatação científica. Digo que concordo em parte, porque tanto o prazer como a dor são sensações e percebemos o mundo através das sensações. Quanto mais jovem o indivíduo menos ele consegue descrever detalhadamente suas sensações e com isso identifica menor números de sensações, pois tem menos repertório para tanto. Com o transcorrer da vida das experiências vividas nosso arcabouço mental vai se aprimorando e conseguimos porque temos mais recursos descrever melhor as sensações como também desenvolver melhor meios de enfrentamento do que quando mais jovens. Certamente, com a idade muitos sistemas do nosso organismo vão evidenciando seus desgastes e sintomas que quando jovens não se manifestavam começam a dar “sinais” do tempo vivido. Com isso, alguns indivíduos ficam mais vulneráveis a sentir algumas dores. Porém, a dor não é necessariamente um sinal de fragilidade e sim um sinal de “Cuide-se, você merece!”

Quais os melhores estímulos para sair do círculo da dor crônica?
Inicialmente, deve-se pensar que a dor não é necessariamente um sintoma ruim, embora nos faça sofrer bastante. A dor é antes de mais nada um alerta apontando para o fato de que alguma coisa não vai bem. Ficaríamos extremamente vulneráveis se não sentíssemos dor. A dor nos protege contra as agruras da vida. Contudo, quando ela se prorroga além do tempo necessário para a cura de uma lesão ou se prolonga porque ocorreu alguma alteração do sistema que nos “notifica” sobre possíveis ameaças é que ela se cronificou. Há inúmeros motivos para que a dor se cronifique, mas todos esses motivos estão relacionados à alterações dos centros superiores ou seja, do sistema nervoso (central e ou periférico) que ficou habituado e sensibilizado a responder com dor mesmo para estímulos que não se relacionam a ameaça ao organismo. Interromper o ciclo vicioso requer um trabalho ativo, multidimensional, que inclui desde a medicação, mas não só ela, como trabalho mental e físico. Poderíamos dizer que o primeiro passo é enfrentar o desespero. E não se deixar levar por ele.

Como evitar que a dor cause depressão?
A depressão, do ponto de vista psicológico e não biológico, em poucas palavras poderia ser traduzida pela vivência da falta de perspectivas. Certamente, na depressão ocorrem alterações de mediadores químicos, porém, já está bem estabelecido que o enfrentamento comportamental da depressão é um dos elementos que juntamente com as alterações bioquímicas levam os indivíduos a melhorar sua condição depressiva. Com isso, estamos dizendo que não agir no sentido de tentar enfrentar os problemas relacionados à depressão é tão ou mais pernicioso do que não tomar remédios.

Como a família pode avaliar que é um quadro mais sério envolvendo o emocional?
Quando alguém se encontra numa situação em que perdeu a capacidade de trabalho, seja remunerado ou não, ou seja, de manter ativo para se sentir produtivo, e perde a capacidade de amar ou seja, de dedicar-se aos entes queridos ou “investir” em desenvolver atividades que lhe tragam satisfação, então, a situação é de alerta extremo e necessita de cuidados tanto para a depressão como para os demais sintomas relacionados. Com certeza não se deve aguardar que se chegue a tal ponto. Buscar ajuda desde os primeiros sinais de desesperança e desespero é sempre o melhor caminho.

A dor contínua leva à tristeza, ao desânimo, às noites mal dormidas. Que tipo de tratamentos multidisciplinares podem ser usados?
O tratamento da dor, particularmente a crônica, como dissemos é multidimensional. Tomar remédios é fundamental, mas tomar atitudes, que visem a mudança de hábitos e mudança comportamental, também. Com isso quero dizer que buscar ajuda de tratamentos que visem o agir, mudar as atitudes é tanto ou mais reestruturante do que a medicação. O tratamento psicológico, nestes casos, não se relaciona ao fato de a pessoa necessariamente ter desenvolvido um quadro psicopatológico, mas visa a reestruturação dos hábitos comportamentais e esquemas mentais que sem consciência se desenvolveram ao longo do tempo e estão perpetuando os esquemas que não servem mais.


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Livro dos Avós: Na casa dos avós é sempre domingo é o lançamento da Primavera Editorial, escrito pela psicanalista Lidia Rosenberg Aratangy (foto) e pelo pediatra Leonardo Posternak. Os autores falam sobre o papel dos avós nos tempos atuais em que pesquisas conduzidas em países com culturas e economias diferentes apontam que vivenciamos o “século dos avós”, bem distante do século XIX, quando apenas 3% dos indivíduos ultrapassavam os 60 anos. O nascimento de um neto oferece a oportunidade de inaugurar um novo tipo de relacionamento, mas traz também um tipo especial de responsabilidade. Não é fácil apoiar e ajudar os filhos sem oprimi-los, e é preciso levar em conta que eles têm o direito de cometer seus próprios erros para aprender.

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A psicanalista Lidia Rosenberg deu essa entrevista para o blog do Ideac e comenta que a arte de ser avós, antes de tudo, é a arte de ser pais de filhos adultos, o que requer um delicado equilíbrio entre estar disponível quando necessário e não ser invasivo, pois, mesmo depois de serem pais, os filhos precisam de apoio, reconhecimento e até de proteção, ainda que às vezes tenham certa resistência para confessar. Lidia Rosenberg Aratangy é terapeuta de casais e de famílias, professora universitária desde 1962 e autora de livros adotados em vários estabelecimentos de ensino. Escreveu, entre outras, as obras: Doces venenos, conversas e desconversas sobre drogas (Editora Olho D’Água); Tesouros da juventude (Editora Olho D’água); O amor tem mil caras (Editora Olho D’Água); Sexualidade: A difícil arte do encontro (Editora Ática); Pais que educam filhos que educam pais (Editora Celebris); O corpo: Limites e cuidados (Editora Ática) e O anel que tu me deste – O casamento no divã (Primavera Editorial).

Confira a entrevista:

Os filhos preferem que os avós os visitem ou levar os filhos em suas casas?
Não é o que eu tenho observado. Na minha experiência os pais preferem deixar os filhos na casa dos avós, a menos que devam se ausentar por um longo período e preferem (o que faz sentido) que a criança tenha de enfrentar menos mudanças em sua rotina, além da ausência dos pais.

Pessoas de mais idade repetem histórias e as crianças também adoram ouvir as mesmas histórias. Há alguma relação de afinidade entre esses dois extremos por conta desse fato?
A idade não faz ninguém ficar repetitivo, se a pessoa estiver saudável e com uma vida saudável, isto é, com contatos e interesses diversos. As histórias que só os avós podem contar (e que os netos adoram!) são as que falam da infância (e estripulias) desses que agora são pais. E são os netos que pedem para que esses episódios sejam recontados muitas vezes. Nada a ver com caduquice dos avós, mas sim com esse repertório que só eles possuem.

Os avós de hoje estão vivendo mais intensamente os netos do que antes?
Estão vivendo tudo mais intensamente do que viviam as pessoas da mesma idade de outras gerações. Mas a principal diferença não está na intensidade das experiências, e sim na diversidade que o mundo hoje oferece – e a saúde dos avós permite.

Muitos avós estão assumindo integralmente a educação dos netos por conta de pais que trabalham fora. Isso é bom ou ruim?

Mesmo que os pais trabalhem fora o dia inteiro, e ainda que só ficassem com as crianças nos fins de semana (o que dificilmente acontece), os avós não têm como assumir a educação dos netos. Essa será sempre responsabilidade dos pais, os avós são colaboradores, mas nunca protagonistas. A menos que a a ausência dos pais seja definitiva, por morte ou abandono. Mas então os avós estarão efetivamente exercendo a função paterna.

Avós muitas vezes mimam demais e deixam os netos fazer coisas em suas casas que eles não poderiam na casa deles. Essa contra/autoridade é prejudicial?
Na casa dos avós valem as regras dos avós, quer eles sejam mais permissivos quer sejam mais restritivos do que os pais. As crianças logo aprendem que seu comportamento é diferente em diferentes ambientes: elas se comportam na escola, ou na casa de um colega, de um jeito diferente do que na própria casa. A casa dos avós é mais um espaço cujas regras ela precisa conhecer para ser adequado. Isso vale também para os adultos: você vai se dar mal se se comportar na Sala São Paulo do mesmo jeito que se comporta no Itaquerão.

Quando os netos crescem a tendência é que eles se afastem dos avós que sofrem muito com essa ausência. O que os pais podem fazer para tentar evitar que isso ocorra?
Nem sempre. Há uma fase de afastamento, mas eles costumam voltar. Muitas vezes os avós são os únicos representantes dos adultos em quem os jovens confiam.

Muitos avós dizem que criavam seus filhos com naturalidade, mas quando ficam com os netos é muito mais tensão. Por que?
São provavelmente avós que temem o julgamento dos filhos. Mas não é a regra. Os avós tendem a ser mais espontâneos com os netos do que eram com os filhos, quando tinham de mostrar para o mundo que bons pais e educadores eles eram. Os avós não precisam mais provar nada, já fizeram todos os testes.

A falta de paciência dos netos adolescentes dói. Os avós devem falar com eles sobre isso?
Se dói, é fundamental dizer isso aos impacientes. Não como cobrança ou represália, mas porque é importante a gente saber que efeito provoca no outro um comportamento impaciente e intolerante. Muita paciência e tolerância tiveram (e têm) os pais e avós dessa criatura desatenta. É melhor não esperar até eles estarem do outro lado do balcão para aprender isso.